Política Cor-de-Rosa

Reza a lenda que, num discurso de agradecimento, o Marechal Montgomery (responsável pela derrota do exército de Rommel e, por conseguinte, pela vitória dos Aliados no Norte de África - 2ª Guerra Mundial) afirmou orgulhosamente "Eu não fumo, não bebo, não prevarico, e sou herói!". O PM britânico, Winston Churchill, que ouvia o discurso na plateia, depois de ouvir a auto-glorificação do militar, virou-se para o espectador ao seu lado e segredou-lhe "Eu fumo, bebo, prevarico e sou chefe dele.".

A política ocidental, especialmente a norte-americana, devia aprender alguma coisa com o comentário jocoso de Churchill. Frequentemente assistimos a comentários e insinuações do âmbito pessoal que, estranha mas eficazmente, funcionam como apelos políticos. Hillary Clinton tem frequentemente sido vítima desta estratégia. A enorme importância que a política americana dá a questões pessoais sem qualquer relevância política permitiu que se formasse um reality show que tem o seu pico de audiências na campanha para as eleições presidenciais que se realizam já em novembro. Donald Trump tem questionado todos os passos de Hillary. E já alertou: Clinton é mais perigosa do que Obama, porque nem a religião que a ex-Primeira Dama pratica nós conhecemos! Obviamente que o tema preferido de Donald Trump é o escândalo sexual que envolve Bill Clinton e Monica Lewinsky, mas, para Trump, da vida de Hillary há muito por onde pegar! Desde ser alguém que "não consegue satisfazer o marido" até "encorajar a infidelidade do marido", Donald Trump disse tudo sobre a vida pessoal de Hillary Clinton, para daí tirar conclusões políticas. Normalmente, estas últimas têm pouca correspondência com a realidade. Além disso, condenar uma mulher pelas ações vergonhosas do marido também não parece a melhor estratégia.

Nos Estados Unidos, escândalos pessoais, mesmo sem influência política, dão direito a demissões, processos de impeachment e tudo mais (noto, todavia, que Bill Clinton foi sujeito a um processo de impeachment por perjura, e não por ter traído a sua mulher. No entanto, a acusação de perjura baseou-se em declarações  de Bill Clinton sobre o escândalo sexual). François Hollande, se fosse americano, teria penado para continuar na presidência depois de ter sido descoberto o seu caso extra-conjugal. E se para muitos interessa conhecer os valores morais de um responsável político, é importante reconhecer que os julgamentos morais são apenas julgamentos morais e valem por si mesmos, não fazendo sentido tirar conclusões políticas desses julgamentos. É esta distinção entre julgamentos morais pela moralidade e julgamentos morais pela política que deve ser feita: eu posso rejeitar um político pelas suas ações imorais, ainda que do foro pessoal, mas esse é um julgamento meramente moral, que não dá aso a previsões no campo do exercício político. 

Talvez o eleitorado deva deixar de querer saber se o candidato fuma, bebe ou prevarica (no sentido light), porque estas questões ocupam tempo e paciência daqueles que têm interesse em questões políticas mais relevantes e que preferem conhecer o plano económico e a visão para o futuro de um candidato. Donald Trump tem razões para recorrer às questões pessoais - não tem substância política, nem sabe avaliar a dos outros; mas um cidadão minimamente informado não devia ceder tão facilmente.
S.G.



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