Et tu, Pence
Mike Pence esteve a bom nível no debate vice-presidencial de ontem, sendo considerado o vencedor pela maioria da imprensa. Mais calmo e ponderado, o Governador do Indiana "brilhou" na mediocridade que marcou a hora e meia de discussão.
Tanto Kaine e Mike Pence são , como disse quando foram anunciados, escolhas de má qualidade, tendo provado isso na última madrugada. Pouco carismáticos e aborrecidos, protagonizaram um debate que não defraudou as expectativas, porque já toda a gente previa que nenhum dos dois estava talhado para estes palcos.
A estratégia dos dois passou primeiro por evitar responder a todas as perguntas, mudando imediatamente de assunto quando a moderadora parava de falar. Para além deste ponto comum, as diferenças claras entre os dois candidatos mostraram uma divisão profunda e estrutural na política americana. Raramente conseguiam concordar as coisas mais básicas, deturpando factos para manter bem fundo o poço ideológico.
Tim Kaine tinha-se preparado para atacar constantemente Trump, mas estava tão nervoso que tentava pôr 20 ataques diferentes em cada frase, interrompendo muitas vezes Pence pelo meio. A falta de experiência e qualidade política do "padrasto da América", como lhe chamou Steven Colbert, foi notória. As frases feitas constantes não ajudaram a mostrar o homem que é suposto humanizar uma candidatura que já é robótica no topo. Apesar dos erros , algumas respostas muito honestas e ideias bem estruturadas deram-lhe pontos, e, apesar de não ter atacado Trump tão eficazmente como podia, conseguiu que Pence se distanciasse em demasia como seria a sua ideia. A defesa de Hillary e de Obama era difícil nestes tempos de ódio, mas fez tudo o que podia.
O Governador do Indiana, por seu lado, chegou ao debate com o objetivo de anunciar a sua candidatura às eleições de 2020. Com uma mensagem conservadora em todos os aspetos (típica do movimento Tea Party no qual se revê), mostrou que é um representante muito eficaz da ala mais à direita do "establishment" do seu Partido. Mais experimentado nestas andanças, fez o mesmo que Hillary fez com Trump. Não respondeu às provocações do seu adversário mais tenso e manteve uma postura mais respeitável. Atacou Hillary eficazmente (muito melhor que Trump), com referências mais diversificadas e menos agressivas às várias falhas na carreira da Secretária de Estado, cumprindo essa parte do trabalho de candidato vice-presidencial muito bem. A outra parte é que foi pior...
A defesa de Trump foi péssima em todos os aspetos. Desmentiu várias citações totalmente corretas que denegriam a imagem do seu líder, fugiu a muitas questões e quando respondeu nunca conseguiu convencer.
Kaine preparou o caminho pra a Vice-Presidência em 2016, defendendo Hillary de forma aguerrida.
Pence preparou o caminho para Presidência em 2020, provando o que muitos já achavam verdade, que se está a aproveitar da necessidade que Trump tinha de ter alguém ao seu lado com créditos firmados no Partido para criar uma aura de "mártir dos Republicanos", que defendeu o Partido acima de todas as coisas. É certamente melhor chegar às primárias em 2020 como um "herói da guerra de 2016" do que como um Governador incompetente do Indiana.
É fantástico como assistimos a comentários na Europa a dizer que as eleições americanas são muito compridas porque o processo começa um ano e meio antes. Meus amigos, os votos ainda nem foram contados em 2016 e quem se vai candidatar já está a preparar estratégias para 2020.
Mike Pence deu uma facada nas costas de Trump e a sua vitória neste debate poderá acabar por ser classificada como pírrica no contexto de 2016, mas muito inteligente no contexto de 2020. Entretanto, Hillary vai liderando em praticamente todas as sondagens.
João Jonet

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