Evan Macquê?


Um ponto prévio: Esta semana só fizemos a cobertura do debate porque não estamos cá para discutir as hipotéticas indiscrições de Donald Trump. Gostávamos que as eleições se focassem em ideias e não em difamações. É deprimente quando uma semana destas acontece, em que os projetos passam para segundo plano e em que a única coisa de que se pode falar é dos sítios onde Trump agarrou não sei quem e o que é que isso chocou pessoa X ou Y.

Bem, como já disse aqui várias vezes, Hillary Clinton será certamente a candidata mais votada das eleições de 2016 e será também a candidata com mais votos do Colégio Eleitoral, tendo grande probabilidade de passar a barreira dos 270 votos e tornar-se a próxima Presidente dos EUA.

Ora, esta semana surgiu uma possibilidade estranhíssima, a de ninguém ganhar os 270 votos do Colégio Eleitoral. Evan McMullin, ex-funcionário dos Republicanos no Congresso e agente da CIA, tinha apresentado uma candidatura independente já há uns meses, mas decidi não falar dele porque a candidatura não era referida nas sondagens e era ridicularizada constantemente. McMullin teve de entrar numa batalha legal para estar presente nos boletins de diversos Estados (por ter entrado na corrida demasiado tarde) e ainda puseram o nome errado para o candidato Vice-Presidencial, mas, de repente, esta confusão ganhou relevância. Em duas sondagens recentes no Utah, um bastião Republicano repleto de Mormons, McMullin (que é Mormon) aparece muito perto de Hillary e de Trump. Um candidato independente ou de uma 3ª força política tem a possibilidade de ganhar um Estado pela primeira vez desde 1968, e não é o único, com Gary Johnson (Libertário) a estar muito próximo de liderar as sondagens no Novo México, onde foi Governador.

"O que é que isto interessa?", pergunta o leitor. Afinal, falamos de Estados que juntos concentram 11 votos do Colégio Eleitoral. Mesmo que estes candidatos alternativos os vençam, que efeitos é que pode ter? Muito provavelmente nenhuns, Hillary cavou uma vantagem tão grande nas últimas 2 semanas que não chegar aos 270 votos parece altamente improvável. No entanto, se por acaso Trump recuperar os Estados que liderou depois da pneumonia e antes do 1º debate (Nevada, Carolina do Norte, Ohio, Iowa e Florida), o que pode acontecer se o Republicano contar com uma série de azares do lado dos Clintons, podemos ter uma situação em que ninguém ganha as eleições. Mesmo se Trump ganhar o Utah e Gary Johnson ganhar o Novo México, teremos este problema.

Os fundadores dos Estados Unidos, sempre preparados, criaram um sistema para esta situação. Se nenhum candidato conseguir uma maioria dos votos do Colégio Eleitoral, a eleição irá para o Congresso, onde todas as delegações dos 50 Estados terão um voto na Casa dos Representantes para escolher o novo Presidente (de entre os 3 candidatos com mais votos)  e cada Senador terá um voto para escolher o Vice-Presidente (de entre os dois mais votados). Se não houver decisão acerca do Presidente até ao "Dia da Inauguração", o Vice Presidente será o próximo Presidente.

31 das 50 delegações (representantes de cada Estado) são controladas pelos Republicanos, mas, como vimos recentemente, muitos congressistas não gostam de Trump, podendo virar-se para Gary Johnson ou McMullin, dividindo o Partido. É provável que os Democratas consigam empatar o Senado a 50/50 com Joe Biden a ter o voto decisivo. Portanto, se a Casa dos Representantes não produzisse um candidato, Tim Kaine seria o próximo Presidente dos EUA.

Tudo isto é altamente improvável, visto que não acontece desde 1824, mas certamente daria um belo espetáculo mediático. O normal é os candidatos secundários fragilizarem um candidato em específico e neste momento Johnson e McMullin estão é a minar a posição de Trump em Estados muito Republicanos (tirando o Novo México). Chegando a um ponto em que o desdém do eleitorado pelos dois candidatos seja equiparável, este cenário entra no campo do provável.

João Jonet

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