Um Referendo à Decência
Já ficou claro que em 2016 os EUA não vão ter umas eleições normais. Os dois partidos que dominam a cena política americana há 150 anos apresentaram os dois candidatos mais impopulares da História, pondo a nu as fragilidades de um sistema bi-partidário.
Donald Trump tomou conta de um Partido conservador com uma mensagem altamente incoerente que é tudo menos conservadora. Hillary ganhou a nomeação do seu partido apoiada na ala mais moderada, que dará lugar à ala mais populista de Bernie Sanders apoiada nos jovens. Portanto, conquistam ambos a nomeação apoiados nos ventos da mudança ou indo contra eles, respetivamente.
Tudo isto já passou e agora não interessa muito. É preciso compreender que esta eleição não é sobre quem é de esquerda e quem é de direita. Nem se pode dizer que seja bem uma eleição, isto é um referendo. Neste referendo há duas hipóteses e é a alma da mais antiga democracia do mundo que está em jogo.
Os americanos têm duas hipóteses neste referendo, podem defender os valores da sua democracia ou podem desvirtuá-la por completo. Trump é a caricatura do tirano que qualquer pessoa que elabore um regime democrático teme. O homem que com uma retórica nociva apela ao pior do ser humano para chegar ao poder. O homem grotesco e rude que não respeita nada nem ninguém a não ser que lhe dê jeito. Não é este homem que pode liderar o país com mais pergaminhos em termos de tradição democrática.
Curiosamente, só as mulheres entenderam esta dinâmica, votando contra o seu Partido porque a opção que lhes colocam é inadmissível. As sondagens mostram que os homens ainda se dividem entre linhas partidárias e isso é preocupante. Está na altura de acordar para a realidade. Quem apoiar Trump não vai estar do lado certo da História.
Hillary não é perfeita, nem de perto, mas isto é muito maior que ela ou que Trump ou que qualquer eleitor que se dirija a uma urna no dia 8 de Novembro. É um momento histórico de rejeição de tudo o que pode correr mal numa democracia. É um momento em que se prova que a democracia não é perfeita, mas que consegue parar os tiranos quando é preciso.
Nestas instâncias não é a cor partidária que interessa, nem as ideias, o mais importante é evitar pôr um ignóbil atrás da secretária mais importante do mundo.
João Jonet

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