Assim Não Dá Para Fazer Nada...


Governar os EUA tem sido nos últimos anos extraordinariamente difícil. Os últimos Congressos foram de uma ineficácia gritante, com o número de leis a chegarem à "Resolute desk" a ser absolutamente ridículo entre 2010 e 2014 ( anos em que o Senado foi Democrata e a Câmara dos Representantes Republicana). O Congresso de 2013-2014 foi considerado por 65% dos americanos o "pior de sempre", tal o nível de quezílias partidárias. Para ter uma ideia, este congresso passou 234 leis enquanto o Congresso de 1947-1948, que Truman apelidou de "Do Nothing Congress" e usou para ganhar as eleições de 1948 como candidato anti-sistema (enquanto era Presidente) passou 906 leis(!).
Um gráfico que mostra a crescente ineficácia do Congresso.

A resistência Republicana à Administração Obama foi absolutamente brutal, o partido entrou em "modo guerrilha" quando conseguiu uma maioria na House em 2010 e com as eleições para Governador que ganhou (8 "swing-states" passaram para as mãos do GOP) nesse mesmo ano de Censos, aproveitaram para re-desenhar centenas de "congressional districts" de maneira a otimizar as suas chances de vencer a House outra vez. Este processo, conhecido como "gerrymandering", consiste em tentar concentrar o máximo de votantes do partido contrário no menor número de "districts" ao mesmo tempo que se maximiza o número de "districts" pertencentes ao partido que controla a Mansão do Governador e o Congresso Estadual. Isto dá em que se radicalize os "districts" ou muito à esquerda ou muito à direita, tornando a primária do partido dominante mais importante do que a eleição geral, e submetendo os congressistas ao forte escrutínio dos puritanos do seu partido, avessos ao compromisso com o outro lado do espectro político. O Congressista José Serrano (D), por exemplo, que representa o Bronx, nunca ganhou uma eleição com menos de 92% dos votos. É verdade que este é um caso extremo, mas é importante para mostrar que não existe qualquer incentivo para a maioria dos congressistas trabalharem com os seus adversários.
Os "congressional districts" da Carolina do Norte, considerados inconstitucionais pelo Supremo Tribunal tal foi o radicalismo eleitoralista a desenhar estas linhas em 2011. Aquela "cobra" azul num mar encarnado (o 12º) é o mais escandaloso de todos e umas das razões para ser declarada a inconstitucionalidade. Em 2016 Os Republicanos ganharam o Estado (53%-46%), mas 10 dos 13 representantes eleitos eram Republicanos.

Um esquema que explica como o "gerrymandering" pode afetar uma eleição.


Aqui está um paradoxo da política americana que a torna basicamente impossível de controlar desde 1994. O Congresso tem uma popularidade baixíssima (apenas 16,4% dos americanos aprovam o trabalho dos seus representantes) e é constantemente criticado pela falta de acordos entre os dois partidos, mas quando chega a altura das eleições as pessoas exigem radicalismo ideológico e castigam o compromisso. Basicamente, o eleitorado está sempre insatisfeito.

Exercício engraçado do Washington Post em 2011, que mostra o Congresso com menos popularidade que Hugo Chavez ou o derrame da BP no Golfo do México em 2010.

Outro problema deste radicalismo ideológico (no Senado, por exemplo, não há um Republicano mais liberal que um Democrata ou vice-versa. Em 1994, 34 Senadores estavam nesta situação) é o dos "congressional caucuses", agremiações de congressistas com visões idênticas ou características em comum, que servem para avançar a causa em questão através de uma fanática unidade. Alguns são baseados em questões étnicas como o histórico "Congressional Black Caucus" e servem para lutar pelos interesses da etnia em questão (uma causa que implica critérios segregacionistas altamente hipócritas. O grupo é exclusivamente constituído por afro-americanos, sendo congressistas de outras etnias que se preocupem com a causa excluídos pela cor da pele). Outros são absolutamente inócuos como o "Northern Border Caucus" e outros têm uma poderosa carga ideológica como o "Freedom Caucus" (republicanos de extrema-dreita), o "Tuesday Group" (republicanos centristas), a "Blue Dog Coalition" (democratas de centro-direita) e o "Congressional Progressive Caucus" (democratas que por vezes roçam a extrema-esquerda). Estes grupos são mais um veículo de radicalização e de inoperância, criando fações de guerrilheiros fanáticos dentro dos partidos.
O Speaker John Boehner e o e Líder da Maioria Eric Cantor, por exemplo, foram destronados pelo "Freedom Caucus"  por serem muito moderados e colaborarem com o Presidente, apesar de lhe terem feito feroz oposição.

O Congresso está cada vez mais dividido em grupos radicalizados.

 Precisávamos que os políticos americanos tivessem a coragem de expor a insustentabilidade desta situação aos seus constituintes, que se deixassem de eleitoralismo e de aglomeração e aproveitassem o tempo que passam no Congresso para mudar o país e não para preparar a re-eleição ( Steve Israel (D-NY) chegou a dizer que passou mais tempo no Congresso a angariar fundos para os seus colegas do que a legislar). Só assim a América poderá voltar a ser governável.

P.S.: Amanhã teremos um artigo que fará a análise da inoperância do atual Congresso, feita que está a contextualização. De lembrar que hoje o Senado votou em favor de começar o debate das propostas de substituição e revogação do "Obamacare"

João Jonet

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