O Elefante na Sala


Amanhã começa a cimeira do G-20 e com ela um chorrilho de notícias virão sobre as dezenas de reuniões que se realizam entre os mais poderosos líderes do Planeta. Juncker v May, Trump v Macron, Merkel v May e Trump + Putin + Erdogan, a especulação sobre quem é amiguinho de quem e quem quer atacar quem não vai parar.  No entanto, todos os olhos estarão nas novas estrelas da companhia, Donald Trump e Emmanuel Macron, dois homens com visões completamente diferentes para o futuro do Planeta que chegam à primeira reunião do grupo com o intuito de conhecer os cantos à casa e começar a contar espingardas. O Presidente Francês junta-se a um crescente grupo centrista de chefes de Estado e Governo que conta com o Presidente argentino Maurício Macri, O PM canadiano Justin Trudeau, o Presidente Mexicano, o PM italiano (que aquece o lugar enquanto Renzi trabalha para regressar) e o também estreante Presidente Moon da Coreia do Sul. Já Trump vai juntar-se ao também crescente grupo de nacionalistas onde se enquadram Vladimir Putin, Recep Tayyip Erdogan, Narendra Modi e, em certa medida, Theresa May. Nota-se a ausência de líderes influentes de centro esquerda, com Hollande a ser o último membro relevante (Jokko Widodo da Indonésia ainda se enquadra nestes moldes) dessa espécie a pisar estes palcos.

O grupo centrista que tem em Macron um fortíssimo porta-voz  procura dar um forte e reformador abraço à globalização, procurando torná-la mais justa, verde e segura, não através da redistribuição, mas sim de colaboração transnacional no campo da fiscalidade, da segurança e do ambiente. Já o grupo nacionalista, que reforçou as suas fileiras com o homem mais poderoso da Terra, procura descredibilizar estas reuniões e retirar preponderância às organizações internacionais, e não há nada melhor para esse efeito do que trazer um palhaço cor-de-laranja para o centro da mesa de negociações.

A Administração Trump, perdida na sua incompetência, está a passar estranhíssimas mensagens ao nível da política externa, o que não torna possível antever qual será ao certo a estratégia para esta reunião. Com os polos de influência a dividirem-se entre a neo-conservadora Nikki Haley, Embaixadora na ONU, o pragmático Secretário de Estado Rex Tillerson e os cinco ou seis neurónios que lutam para controlar a cabeça do Presidente dos EUA, é sempre difícil perceber o que se vai passar. Se, por um lado, Haley defende intervenções dos EUA em defesa dos direitos humanos, seja na Coreia do Norte, seja na Síria; Tillerson  parece querer punir estes regimes com mais isolamento internacional, enquanto Trump se divide entre querer falar com Kim e Assad e querer bombardear os seus países até que não sobre nada. Esta confusa estratégia diplomática, a juntar à maneira dissimulada como Putin opera, à relutância de Xi Jinping em agir em relação ao seu vizinho coreano e ao medo que Merkel tem de assumir o seu novo papel de liderança no Ocidente, fazem dos prognósticos quanto às exigências e propostas de Trump nesta cimeira e quanto à maneira como estas vão ser recebidas um cálculo político extremamente complicado. E estou só a falar do plano informal, porque quando for para falar de economia, também não há maneira de saber se Trump atacará a China e as suas práticas desleais (tem vindo a chatear-se de novo nos últimos dias),  não sabemos se atacará os novos acordos de comércio livre da UE com o Japão e com o Canadá, nem podemos esperar saber.

Trump numa cimeira destas é como jogar ruleta russa, mas em vez de balas temos incidentes diplomáticos que podem ameaçar a paz e a economia global. Bem, a verdade é que foi este o candidato que o povo americano escolheu: pouco sério, ignorante e com uma falta de tato inacreditável. Parece uma combinação fantástica para discutir o rumo económico do Planeta e possíveis guerras nucleares.

João Jonet

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