The Art of the Fail


A imprensa americana continua a usar marcas temporais para nos recordar que o Presidente dos EUA é de uma incompetência gritante. Ao fim de um mês não tinha nada para mostrar, ao fim de cem dias não tinha nada para mostrar e ao fim de seis meses o mesmo se verifica. Sim, assinalaram-se ontem seis meses que Donald Trump, o empresário de sucesso tornado apresentador de televisão tornado político de massas, jurou a Constituição e se tornou Presidente da maior potência mundial, e, sem surpresa, quase todas as promessas que o levaram à Casa Branca estão tão longe de ser cumpridas como estavam com Barack Obama.

O homem que vinha drenar o pântano que era Washington encheu a cidade de lobistas e CEOs de empresas como o Goldman Sachs, que até este mandato não podiam operar com a clareza nem exercer o mesmo poder que agora exercem, mais perto do que nunca da Sala Oval. O famoso muro ao longo da fronteira mexicana nem entrou nas cogitações do Congresso quando o orçamento foi planeado. A propalada investigação ao casal Clinton e a todos esses políticos do sistema foi imediatamente abandonada. A tentativa de alterar o "Obamacare" foi uma debacle de proporções épicas. As relações com a Rússia continuam frias e as soluções para combater o "Daesh" são as mesmas da Administração Obama. O Médio Oriente ainda ficou mas desestabilizado com a incitação que Trump fez aos países pró-sauditas do Golfo no sentido de isolarem o Qatar, país com importância estratégica e economicamente para os Estados Unidos. Nada corre bem a Trump, tirando as suas saídas dos acordos de comércio livre TPP e TTIP e dos Acordos de Paris, decisões que foram seguidas de um repúdio imediato de Governadores de ambos os partidos , com John Kasich (Ohio) e Brian Sandoval (Nevada) a perfilarem-se entre os Republicanos que querem ver aprofundados os acordos de comércio livre com aliados europeus e asiáticos e centenas de mayors e governadores de ambos os partidos a comprometerem-se a cumprir os Acordos de Paris, como Governador da Califórnia, Jerry Brown, a deslocar-se mesmo à China para negociar a continuidade do mais próspero estado americano no tratado climático.

Estes constantes falhanços, a falta de autoridade que deriva da falta de inteligência política do Presidente e dos escândalos que o perseguem têm feito mossa na imagem externa dos EUA e no próprio aparelho estatal. Funcionários do Departamento de Estado contam histórias mirabolantes sobre o caótico estado desta nova diplomacia "low-cost" gerida por um homem do petróleo, no Departamento da Habitação e Desenvolvimento Urbano contam que Ben Carson (esse génio) quer aplicar uma retórica moralista cristã à ação da organização, no Departamento da Energia questiona-se a literacia do Secretário Rick Perry, na Justiça Jeff Sessions é criticado por Trump por se ter recusado a investigar as ligações da campanha presidencial à Rússia depois do próprio Procurador-Geral ter sido implicado no caso e na Educação ninguém percebe muito bem se Betsy DeVos sabe o que é que o seu cargo implica.

Se me queixei (e se me queixei!) da inexperiência de Obama e da sua incapacidade para lidar com o difícil ambiente da capital, o que dizer de Trump, que, para além de ter ainda menos experiência do que o seu antecessor, ainda escolheu rodear-se das pessoas menos capazes da política americana,  dos políticos que são a "punch line" em qualquer "talk show". O falhanço monumental na tentativa de mudar a saúde americana para um sistema mais orientado para o mercado é um exemplo disso mesmo. O Presidente, que diz ser genial a negociar, nem conseguia escolher uma posição sobre o assunto, quanto mais unir os cinquenta e dois Senadores do seu partido. A ala moderada, liderada por Senadoras e um ou outro Senador  que conseguem reconhecer o lado positivo do "Obamacare", teve sempre os três votos necessários para parar esta legislação, e a ala radical também. Ora, Trump, em vez de ouvir Mitch McConnell, um homem com trinta e um anos de Senado, e fazer uma lei de compromisso que atraísse votos suficientes à esquerda (da ala direita dos Democratas) para reformar o sistema de saúde sem os votos dos radicais paleo-conservadores do GOP, preferiu antes usar as suas extraordinárias capacidades de negociação para unir interesses ideológicos tão diversos que nem ele próprio os percebe. Ameaçou Senadores moderados, prometendo apoiar candidatos conservadores ao seu lugar quando chegasse o próximo ciclo eleitoral, deu jantares com o grupo todo, gritou ao telefone, atacou no Twitter e, no fim do dia, saiu de mãos a abanar.

Ainda faltam três anos e meio, mas já dava para perceber o que esta Presidência ia ser, e agora é bem claro. Muita gritaria, muita promessa, muito" tweet", muito espalhafato e, no fim do dia, nada para apresentar. Com quatro em cada dez americanos a serem neste momento a favor do "impeachment" a Trump, com o escândalo russo a ganhar tração  e com as "midterms" de 2018 aí à porta, a queda será pesada para aquele que poderá bater James Buchanan, o homem cuja incompetência causou a guerra Civil, como o pior dos Presidentes americanos.

João Jonet

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