Caos, Autofagia e Heroísmo
McCain a matar o "skinny repeal"
Está a chegar ao fim uma semana louca no Partido Republicano. Uma semana em que, sem que a oposição ou a opinião pública fizessem muita coisa, o partido conseguiu tornar a sua posição de controlo na Administração e no Congresso ainda mais precária. Comecei a escrever estes artigo na sexta-feira, mas a semana tem sido tão atribulada que tive de esperar mais um dia para cobrir os caóticos acontecimentos.
Começamos pelo Congresso, onde Mitch McConnell forçou votos muito desconfortáveis ao seu grupo parlamentar, tendo 7 Republicanos recusado o "partial repeal" do "Obamcare" e 9 abandonado a estrambólica proposta de "repeal and replace". Abandonado, como se esperava, pelos puritanos paleo-conservadores e pela ala moderada, o Líder da Maioria procurou fazer os mínimos Olímpicos, com a proposta de "skinny repeal" que visava as partes mais impopulares do plano de saúde vigente, os "individual and corporate mandates" (que obrigam indivíduos e empresas a comprarem seguros ou a pagar uma multa para que o sistema possa ser sustentado por pessoas saudáveis, descendo os preços para toda a gente) e o "medical device tax" (imposto sobre equipamentos médicos especialmente dispendiosos, que visa também sustentar os mercados do "Obamacare"). Dada a oposição do GOP a estas provisões, esperava-se que, ao menos, esta proposta passasse, para que o Senado e a Câmara dos Representantes pudessem depois unir-se em "Conference" para alcançar um compromisso de "repeal and replace". O medo era que a House, farta de negociações, se limitasse a passar a lei aprovada no Senado, enviando-a para a secretária de um ansioso Donald Trump. Mesmo assim, os Republicanos da Câmara Alta estavam dispostos a arriscar para poderem cumprir, nem que fosse parcialmente, o que há 7 anos vinham prometendo.
A necessitar de 50 votos (com Mike Pence pronto para quebrar o empate), McConnell podia perder os votos de Susan Collins (ME) e Lisa Murkowski (AK), as Senadores mais centristas do grupo, que se opunham aos previstos cortes no popular programa para os mais desfavorecidos, conhecido como "Medicaid", cortes esses que pouco têm a ver com o "Obamacare" (apesar de este ter expandido o programa), mas sim com a velha vontade da extrema-direita de cortar o programa. Também o corte de um ano no financiamento da organização independente "Planned Parenthood" foi demais para estas Senadoras, que, ao contrário da maioria do partido, são "pro-choice". De realçar a cobardia da Senadora Shelly Moore Capito (WV), que, apesar de também fazer parte do grupo "pro-choice", votou a favor da proposta.
Sem poder perder mais um voto, e com vários Senadores na "corda bamba", o Senado estava ao rubro na madrugada de sexta-feira. Dean Heller (NV), o único Senador Republicano que em 2018 terá de tentar ser re-eleito num Estado ganho por Hillary Clinton, estava garantido, tal como outros moderados, como o ex-secretário da Educação Lamar Alexander (TN), Capito e Rob Portman (OH). De repente, toda a gente chega à realização que John McCain ainda não se decidiu. Mike Pence fica largos minutos a falar com o Senador do Arizona, o Speaker Paul Ryan também tenta acalmar os medos de que a House possa passar a proposta como está e McCain até está fora da Câmara do Senado na altura de votar por estar ao telefone com Donald Trump. Depois de um grande esforço, McCain, o herói de guerra que esteve quase 6 anos preso no Vietname do Norte, sujeito a técnicas de tortura que o marcaram para a vida, o verdadeiro gigante no Senado em que serve há 30 anos, um senhor da política e um patriota sem igual, aproxima-se da mesa da Presidência e depois de algum "suspense", qual imperador romano, vira o seu pulgar para baixo, matando a lei, danificando severamente a carreira de um destroçado Mitch McConnell e roubando a Trump aquela que poderia ser a mais importante legislação da sua Presidência (ficou com muito pouco capital político para fazer o que quer que seja até ao seu "impeachment"). McCain é um herói e provou-o mais uma vez, ao evitar que o seu partido, que hoje em dia parece apenas uma organização diabólica, destruísse a estabilidade do "Obamacare" e retirasse a milhares de pessoas o acesso à saúde por puro revanchismo político. É uma derrota tremenda que McConnell infligiu a si próprio ao forçar esta série de votos, e veremos se não lhe custa a liderança ou mesmo o Senado (embora isso ainda pareça muito improvável).
Passamos para a Casa Branca, onde, no espaço de uma semana, muito graças ao estilo bombástico do novo Diretor de Comunicações Anthony Sacaramucci, o "establishment" "bateu em retirada", deixando esta Casa Branca afundar sem a presença do partido na "West Wing". Primeiro, foi o Diretor de Imprensa Sean Spicer a fugir do bombástico nova-iorquino, a tempo de evitar que o auto-intitulado "The Mooch" o destruísse numa entrevista que deu à "New Yorker", onde acusou o Chefe de Gabinete Reince Preibus de ser "um esquizofrénico paranóico" e acusando-o de ser o "senior leaker" dentro da Casa Branca. Disse também ser diferente do "Chief Strategist" Steve Bannon pois não "ch..... a sua própria p..." numa entrevista em que ameaçou matar todos os "f..... da p... dos "leakers". Sem surpresa, Sacarmucci não foi despedido na sequência desta entrevista, o que levou o ex-Presidente do Partido Priebus a apresentar a demissão. O novo Chefe de Gabinete será o Secretário da Segurança Nacional John Kelly, independente que foi rapidamente aprovado pelos Democratas por ser considerado uma boa influência na Administração, mas que se tem revelado muito subserviente ao Presidente, facto que lhe vale esta nomeação. A disciplina férrea do General pode ser o que é preciso para organizar internamente a Administração, mas esta escolha acaba por ser muito pouco inteligente, não só devido à inexperiência política de Kelly, que dificultará o avanço da agenda do Presidente, mas também porque será necessário nomear um novo Secretário para a sua posição, e neste momento a Câmara Alta não parece ter muita paciência para o ocupante da Sala Oval, que tem atacado o ex-Senador e atual procurador-Geral Jeff Sessions de forma inacreditável, especialmente quando consideramos que este foi o primeiro apoiante da sua corrida presidencial. Trump terá de nomear em breve um Secretário da Segurança Nacional e um Procurador-Geral, ao que parece, com um Senado muito hostil à espera. Todo este canibalismo na Casa Branca parece fazer prever que o fim está próximo. Abram alas para o Presidente Mike Pence (yikes!).
João Jonet

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