Faltam mais McCains
Feito que está o diagnóstico das maleitas generalizadas do ramo legislativo do governo americano (ler aqui), tentarei explicar por que é que o atual Congresso, sendo dominado pelo Partido Republicano e tendo na Casa Branca um Presidente tão incapaz que se disponibiliza a assinar tudo o que lhe puserem à frente, não consegue estar nem perto de uma grande vitória legislativa.
Ultimamente, as lideranças do Speaker Paul Ryan e do Líder da Maioria no Senado Mitch McConnell têm sido responsabilizados pelos constantes fracassos do seu partido, mas, se é justo criticar Paul Ryan por não ter uma alternativa pronta para o "Obamacare" depois de 7 anos a guerrear contra a lei que definiu o mandato de Obama, ou por não ter organizado as normais audiências com a sociedade civil na preparação da sua proposta; e McConnell por elaborar a sua versão da reforma à porta fechada, sem passar pelos comités especializados, a verdade é que estamos perante dois líderes com dificuldades sem precedentes na gestão dos seus grupos parlamentares. Dada a crescente radicalização ideológica da política americana, os tempos em que se conseguia ter uma maioria mais ou menos homogénea em termos ideológicos, ou pelo menos capaz de chegar a acordos de base, parece uma miragem. Claro, já existiram maiorias extremamente heterogéneas no passado, como quando os Democratas juntavam progressistas urbanos do Nordeste com conservadores segregacionistas do Sul, especialmente entre os anos 30 e os anos 70, unidos na defesa dos programas sociais de F.D.R. e L.B.J.. A novidade de 2017 é que, pela primeira vez, o partido que tem uma maioria não consegue unir-se à volta de causa nenhuma. As maiorias de George W. Bush tinham sulistas socialmente conservadores e conservadores liberais do Norte e do Oeste, mas conseguiam unir-se e chegar a compromissos quanto a reformas na educação, política externa e reformas fiscais. A maioria de Obama, apesar de ter bastantes conservadores (conhecidos como "Blue Dogs") alcançou uma reforma do sistema de saúde absolutamente histórica. A maioria de Trump não tem qualquer ponto de consenso, principalmente no Senado, onde a margem de apenas dois votos torna as diferenças dentro do grupo muito mais visíveis. O foco desta análise será mesmo a Câmara Alta pela sua preponderância e por ser mais fácil analisar 100 pessoas do que 435.
Ontem, quando John McCain regressou à Câmara onde representa, há 30 anos, o Arizona, fez a leitura perfeita da situação atual do Senado, bem ilustrada na frase "we are getting nothing done, my friends!". Criticou as guerras partidárias, as pessoas que, como ele, por vezes querem ganhar só para dizer que ganharam, elogiou o progresso incremental, que não sendo glamoroso, disse, é a coisa mais importante que um legislador pode almejar. Criticou o radicalismo, a falta de compromisso e o ódio que se sente na Câmara e votou (decisivamente) para avançar o debate da reforma ou revogação do "Obamacare", não por apoiar o projeto em discussão (antes pelo contrário), mas porque debater as questões importantes é uma coisa que o Senado tem constantemente evitado, preso em detalhes processuais e bloqueios muito pouco construtivos, levados a cabo por extremistas dos dois lados da barricada.
O grupo de apenas 52 Senadores Republicanos não consegue fazer nada porque pessoas como Rand Paul (KY), Ted Cruz (TX) ou Mike Lee (UT) são demasiado idealistas para estarem num órgão que obriga ao compromisso, não conseguem fazer nada porque os Senadores que são derrotados quando um partido não cumpre as suas promessas não são os radicais que condenaram as reformas necessárias ao fracasso, mas sim os moderados que tentaram alcançar um compromisso. 2016 foi exemplo disso, com os centristas Mark Kirk (IL) e Kelly Ayotte (NH) a serem derrotados por sólidas candidatas progressistas, e Mike Lee e Rand Paul a serem reeleitos por larga margem. Só uma minoria de 20 ou 30 Senadores conseguiria ter a pureza ideológica que os membros do "Tea Party" ou do "Occupy Wall Street" desejam. Num dos países menos heterogéneos do Planeta, é impossível desejar que 51 pessoas eleitas, no mínimo, em 26 Estados diferentes consigam estar sempre em total acordo.
Já muito faz Mitch McConnell, pessoa que desprezo pela falta de pensamento ideológico de que se orgulha, que conseguiu que 50 membros do seu grupo de libertários, centristas, conservadores e neo-liberais votassem ontem para iniciar debate. O Líder da Maioria ressuscitou um esforço que todos pensavam estar morto através do seu profundo conhecimento de regras processuais e do seu extraordinário poder de persuasão dentro da Câmara (algo de mágico se passa lá dentro, porque McConnell deve ser das pessoas menos carismáticas que já caminhou sobre a Terra). Se este Congresso já faz pouco, imagine-se se a liderança não tivesse 30 anos de experiência.
Para mim, o problema principal não só deste Congresso, mas dos Estados Unidos, é o seu Presidente. A falta de clareza na mensagem, o constante recurso a insultos e a falta de inteligência do ocupante da Sala Oval torna difícil unir os congressistas à volta da agenda do Presidente, principalmente porque ele é imperceptível. McCain criticou os apresentadores de televisão, os comentadores, os programas de rádio e os blogs que radicalizam a opinião pública americana e desencorajam o compromisso, mas quem mais divide é o Comandante Supremo das Forças Armadas que construiu a sua carreira política com base nesse tipo de táticas e meios de comunicação. John McCain vai lutar contra o tumor cerebral que lhe diagnosticaram, e desejo-lhe muita sorte nessa luta, porque Washington precisa de estadistas como ele para lutar contra um outro cancro terrível que vive na Casa Branca.
João Jonet

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