Ele está de volta



É estranho que um homem com este à vontade, com esta capacidade de controlar a narrativa, manipular os seus adversários e dominar debates tenha, durante tanto tempo, andado afastado da política, mas as pessoas não deixaram de ficar surpreendidos com o regresso de Santana Lopes às campanhas eleitorais.  

Eu próprio achei que o ex-Primeiro Ministro não teria qualquer hipótese de regressar à atividade, até porque o único cargo para que tinha tido reais possibilidades (a Presidência da República), parece ocupado por muitos e bons anos. A verdade, é que todos nos esquecemos que estamos perante um "animal político" com instintos e capacidades mais apuradas do que quase todas as pessoas que ocuparam cargos públicos em Portugal nas últimas duas décadas e que o seu "habitat natural" é este, a praça pública e a campanha, onde está confortável como poucos.

Assim foi no debate de ontem onde, desde o primeiro momento, sentimos essa latente diferença entre um robótico tecnocrata e um político por natureza. Santana interage melhor com o jornalista, com a câmara e com o adversário com um nível de detalhe impressionante. A maneira como trata Rio, pelo nome próprio e por tu, como que um velho amigo que o atraiçoa, deixa o público mais confortável e atrapalha completamente o ex-autarca do Porto, que passa mais tempo a hesitar entre a forma como deve tratar Santana do que a tentar afastar o debate dos terrenos desfavoráveis para que o ex-PM o levou. Primeiro, o financiamento dos partidos, em que Rio é obrigado a assumir  posições que próprio reconhece serem "impopulares", enquanto Santana puxa dos galões liberais, declarando confiança na natureza humana e dizendo ser injusto que com a carga fiscal existente se esteja a pensar em dar mais dinheiro aos políticos. Depois, Rio é arrastado para 2004/05, sendo confrontado com o seu apoio a Santana na altura, que contrasta profundamente com as suas críticas a esse governo desde então. Quando Rio se tenta escudar no argumento de que o fizera por pura lealdade partidária, Santana, que já aproveitara o momento anterior para pintar o seu adversário como um defensor da decisão de Jorge Sampaio de dissolver o Parlamento (algo que ainda pesa no sub-consciente da direita portuguesa), volta ao ataque, denunciando a hipocrisia de se afirmar que se é leal ao partido tendo estado a inteira duração do mandato de Pedro Passos Coelho a liderar uma cruzada contra a liderança do PSD.

O argumento da deslealdade de Rio (apesar de pouco interessar a um observador neutro como eu), é muito bem visto numa campanha interna de um partido português, onde as paixões são viscerais e a máquina espera obediência cega. Neste ponto começa a destruição de Rio - neste debate - e sendo que esta discussão durou 40 minutos, é justo dizer que o portuense já chegou algo amassado à parte final.

Com o continuar do debate, Santana foi ganhando pelo seu estilo mais do que pelas suas propostas, o seu discurso parecia mais natural e os seus ataques eram mais incisivos, mesmo em momentos menos conseguidos, em que tentou ligar Rui Rio a António Costa ou quando se discutiram programas económicos, conseguiu rapidamente recuperar, usando o ódio que a direita portuguesa tem a esta solução de Governo e a José Sócrates para voltar a bater na tecla da lealdade, e com alguma razão, porque Rio parece bem mais confortável a culpar Passos Coelho pelos problemas do País do que a Troika que Sócrates obrigou a chamar ou a disfuncional solução encontrada por António Costa para governar o país, que inviabiliza reformas estruturais. Na questão económica, Santana até falhou no momento de fazer a distinção entre programas, não conseguindo mostrar que a sua solução procura conciliar apoios ao consumo com apoios à oferta, ao contrário de Rui Rio, que parece focado apenas em beneficiar empresas. No entanto, conseguiu forçar Rio a propor uma descida do IRC, coisa que só constava do programa de Santana, que está muito mais detalhado e trabalhado do que o do seu adversário, como ficou bem claro.

Ao longo do debate, Santana atacou constantemente a ala dos barões, que dominou o partido entre 2008 e 2010. Critica os seus resultados eleitorais (que foram sem dúvida desastrosos dadas as circunstâncias, coisa que Rio não conseguiu justificar), as suas simpatias com a oposição (absolutamente tóxicas neste clima polarizado), e por fim as suas duras críticas ao Governo de Passos Coelho. Ao colar habilmente Rio a pessoas algo nocivas dentro do partido (principalmente Pacheco Pereira), Santana ganhou o duelo das perceções e colocou-se (e certamente melhorou), a sua posição junto dos militantes. Veremos o que trará o segundo debate, mas se for parecido com este Santana parece disposto a mostrar que ninguém na política portuguesa tem mais vidas que ele.

Rio mostrou uma argumentação fraca e uma capacidade de debate ainda pior. E, se vamos assumir, como até agora é mais sensato, que o PS vai ganhar as próximas eleições, melhor para o PSD será ter um líder com real capacidade discursiva para fazer mossa em António Costa, capaz de liderar uma oposição aguerrida, do que um tecnocrata com o carisma de uma alface, que até pode ser melhor candidato a Primeiro Ministro, mas mostrou ser um candidato terrível a líder da oposição.

Para concluir, lamento a falta de ideias que tem marcado esta campanha, apesar de saber à partida que nenhum destes homens era um ideólogo de grande calibre. Tendo em conta que Santana é um social liberal de estilo moderno, que poderia vender um programa parecido com o de Macron e que Rui Rio é um democrata cristão com vincado foco na responsabilidade financeira, um perfil muito próprio da direita portuguesa, os dois homens deviam ter muito mais para discutir do que o que quiseram fazer parecer, e quem perde é o eleitorado, que acaba sempre a decidir em função do que pensa ser a personalidade de cada político, em vez de ser esclarecido ao nível das ideias políticas. 

De lamentar também que, num país que já se vinha habituando a líderes relativamente jovens, se assista a um duelo de duas personalidades que, mais do que velhas, estão gastas pela liderança de um dos seus maiores partidos.

João Jonet.

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