A Distopia Americana


Donald Trump tomou ontem posse como Presidente dos EUA e, se alguém duvidava, candidatou-se imediatamente ao título de pior Presidente da História dos EUA. Com um discurso pessimamente concebido e absolutamente tenebroso, pintou o quadro de um país que vive uma "carnificina" (sim, foi mesmo esta a palavra) que só ele, o todo-poderoso-seis-vezes-falido-apresentador-de-um-programa-de-segunda, poderá salvar. Ponto a ponto, vou passar a destruir as premissas de Trump e a tecer as minhas considerações sobre as suas ridículas propostas. Raramente me dou ao trabalho de desmentir TODAS as afirmações do novo Presidente dos EUA e de desmascarar TODAS as suas hipocrisias, mas hoje parece-me importante mostrar que este é mesmo o mais hipócrita e mentiroso a fazer o juramento no Capitólio.

Trump mente tanto num tão curto espaço de tempo que muitas vezes ignoramos o que diz. Isto faz parte do processo de normalização da aberração que é o nova-iorquino, mas para todos os que toleram ou gostam do novo Líder do Mundo Livre, é importante perceberam que estão a participar no equivalente político de clicar num anúncio que ofereça iPads. Estão a ser enganados e de forma tão óbvia que insulta a vossa inteligência.

Bem, vamos começar. Trump começa a acusar as elites de Washington de terem enriquecido às custas do país, diz que os políticos prosperaram e as fábricas fecharam e os empregos foram embora. Não se percebe a que período temporal é que Trump se refere. Aliás, é exatamente o mesmo problema que temos com o slogan "Make America Great Again". Quando é que isso foi? Quando é que a América era grande e Washington era pura? Em 1800? Em 1988? Não conseguimos perceber. Depois, temos o problema de isto ser tudo um disparate. Se Trump está a falar dos políticos, concluímos que estes já foram muito mais ricos. Aliás, as fortunas dos líderes americanos estão em queda desde a Fundação, visto que os pais fundadores eram um exclusivo grupo de latifundiários ultra-ricos. Já nos dias de hoje, não é preciso ser um homem branco de classe média alta para cima para se estar no Congresso como era noutros tempos, e a maioria do dinheiro que os políticos trabalham para conseguir dirige-se às suas campanhas (cada vez mais caras) e não aos seus bolsos. Se Trump se estiver a referir à própria cidade de Washington, não há provas de que esta tenha enriquecido às custas do povo americano. De facto, é uma das cidades mas prósperas dos EUA, mas isso deve-se à concentração de trabalho especializado, como é óbvio. Para além disso, a prosperidade de D.C. está em linha com as outras grandes cidades do país. Não deixa de ser irónica esta crítica constante às elites vinda de um bilionário que aumentou a sua fortuna através de meios pouco lícitos.

O Presidente fez também questão de elogiar o seu "movimento histórico" de dezenas de milhões de pessoas, na Inauguração com menos pessoas por percentagem da população dos últimos anos. Estavam tão poucas pessoas, que o Twitter do Presidente usou uma imagem da Inauguração de Obama. Trump é o Presidente com a maior derrota no voto popular da História, tem uma taxa de aprovação de 40% (pior de sempre) e nem nas primárias do próprio partido conseguiu passar dos 50%. O apoio a Trump é histórico, historicamente mau.


Comparação entre as multidões de Obama e de Trump

"Mães e crianças presas na pobreza no interior das cidades... e o crime, e os gangs e a violência (...). Esta carnificina Americana pára aqui e agora." Não seria de pensar que se estava a descrever um país em que apenas 13% da população não é considerada classe média alta mundial (56% dos americanos são considerados classe alta e apenas 2% estão no patamar de pobreza) , em que o crime está no nível mais baixo dos últimos 30 e tal anos. Em 2015, havia 43,1 milhões de pessoas em situação de pobreza para o Governo Federal, menos 3,5 milhões que no ano anterior e com uma incidência ligeiramente maior no interior do que nas grandes cidades. A queda do número de crimes tem sido constante, mas nos últimos dois anos houve um pequeno aumento nos homicídios  devido a tensões raciais (que Trump incita) e acesso demasiado fácil a armas (que Trump apoia).

Rendimentos americanos em relação aos rendimentos globais.


                                      

Imagem que mostra a queda nos crimes violentos que tem sido constante nos últimos 25 anos.

Logo a seguir veio o já típico ataque ao apoio militar dado pelos EUA a países estrangeiros, que, diz Trump, enfraquece a indústria americana e custa demasiado dinheiro. Aproveitou também para dizer que as Forças Armadas americanas estão num estado deplorável. Os EUA gastam 10 mil milhões de dólares por ano em bases e tropas no estrangeiro, principalmente no Japão, na Alemanha e na Coreia do Sul. Pondo de parte a óbvia importância estratégica destas bases, estamos a falar de 2% do orçamento do Pentágono. Depois, ainda temos mais 6 mil milhões investidos em exércitos estrangeiros, principalmente Israel e Egito, se bem que com provisões que forçam a compra de material de guerra americano com esse dinheiro. Gasta-se portanto um bocadinho mais de 3% do orçamento da Defesa dos EUA no estrangeiro, sendo que parte desse dinheiro até cria empregos no país. Já agora, dizer que o país que é responsável por mais de metade das despesas militares do Mundo e que tem umas Forças Armadas sem par, tanto a nível de tecnologia, como de equipamento bélico, tem visto o seu poder militar debilitado é só idiota.


Gastos com exércitos estrangeiros. Lembrar que o orçamento para a defesa é de 500 mil milhões.

Trump segue dizendo que os EUA gastaram "biliões de dólares no estrangeiro", enquanto a indústria americana foi destruída e a riqueza e a confiança desapareceram. Começando pelos gastos noutros países, a ajuda ao estrangeiro dos EUA cifra-se em 26 mil milhões de dólares (18 mil milhões em despesas humanitárias e 8 mil milhões em despesas militares), estes valores não chegam a 1% do Orçamento de Estado. 

Países que recebem ajuda não-militar dos EUA.

É indiscutível que os EUA são o país mais rico do Mundo, com um PIB nominal a crescer desde 2009 e consideravelmente superior ao do perseguidor mais próximo, a China (cerca de 18 biliões dos EUA contra 11 biliões da China) e o índice de confiança do consumidor está nuns altíssimos 113.7, logo Trump está só a dizer disparates. 

PIB nominal das sete maiores economias do Mundo.

Quanto à indústria, houve de facto uma queda de 5 milhões nos últimos 17 anos nos trabalhos nas manufaturas. No entanto, as maiores estimativas apontam para que apenas 2 milhões desses 5 tenham sido perdidos para o estrangeiro, sendo os outros resultado de uma cada vez maior automatização. Para além disso, os EUA acompanham as outras grandes economias modernizadas nesta tendência.


Número de empregos na indústria desde 1996.

Trump falou mais um pouco da fuga das fábricas e de empregos para o estrangeiro, tocando também no empobrecimento da classe média.

Trump tem um ponto quanto à classe média, mas esta está a recuperar desde a Grande Recessão



Essa recuperação vê-se nestes dados do desemprego.


Também se vê nos dados da criação de emprego.


Até se vê nos dados da criação de emprego na indústria.


No entanto, há hoje em dia menos pessoas empregadas nos EUA.

E também temos o problema do crescimento desigual dentro dos EUA. A verde, os sítios que ganharam empregos nos últimos 8 anos, e a encarnado os que perderam.

Que foi vital na eleição de Trump, como mostra o mapa.

Falou depois de proteger o país das maléficas empresas estrangeiras que produzem os produtos americanos e roubam empregos. Trump está a ignorar que o comércio livre é a melhor maneira de tornar os produtos acessíveis ao maior número de consumidores, que os empregos menos qualificados que desaparecem nos EUA são substituídos por empregos que exigem mais qualificações e geram mais dinheiro, que a globalização beneficia principalmente as super-economias com a americana. Mais importante, isto vem tudo de um homem cuja empresa produz em 12 países estrangeiros diferentes.

Por fim, jurou tirar todos os americanos de programas de apoio social e pô-los a trabalhar, isto apesar de 23% das famílias que recebem apoios sociais terem pelo menos um membro a trabalhar e de o número de pessoas inscritas neste programa ter caído em quase 4 milhões nos últimos 3 anos.

De notar que, apesar de ter sido um típico discurso de campanha, não houve insultos a ninguém nem gritos para construir um muro. Trump deve achar que fez um discurso de união.

Estamos perante um Presidente que está focado em todas as coisas erradas, que revela ter uma muito pobre compreensão do Mundo e que é claramente a pessoa mais incompetente da História a assumir o cargo. A Distopia Americana que Trump pintou é uma mentira, mas pode estar a caminho de ser verdade.

João Jonet




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