Brexit Speech
Esta manhã, Theresa May fez o aguardadíssimo "Brexit Speech", o discurso em que indicaria qual a linha que tomará no processo de abandono do Reino Unido da União Europeia. Deixo ao leitor os pontos mais importantes do seu discurso:
- O Reino Unido e a União Europeia são amigos e aliados;
- O Reino Unido não deixará de ser um dos países mais globalistas do mundo;
- Nesta nova fase, é tempo de o Reino Unido se voltar para o mundo, de estabelecer relações com países de todos os cantos do planeta - essa é a tradição internacional britânica que Theresa May quer honrar;
- O exercício de soberania voltará inteiramente à pátria - Parlamento Inglês será soberano e Tribunal Europeu não mais terá poder sobre o Reino;
- A importância e a vontade de manter o comércio internacional - há aqui, felizmente, a rejeição do protecionismo, pelo menos em termos de intenções;
- Não é desejável que o Reino Unido pós-Brexit tenha "pedacinhos de adesão" à União Europeia - significa, portanto, que não há intenção de que o Reino Unido permaneça no Mercado Comum;
- O Reino Unido terá as mesmas regras e Leis que tinha em situação pré-Brexit, e estas só poderão ser alteradas no Parlamento - afirmação que reduz incertezas e instabilidade nesta matéria;
- Garantir, no processo de saída, tanta certeza e estabilidade quanto possível. Porém, nem toda a informação existente a cada momento poderá ser divulgada;
- Controlo de imigração fundamental, mas quer que o Reino Unido continue a ser um país aberto a talentos do estrangeiro, a atrair os melhores do mundo; no entanto, há preocupações com a imigração de força laboral não especializada, que, defende, é muito elevada;
- Tem todo o interesse em garantir os direitos dos cidadãos da UE já no Reino Unido e dos cidadãos Britânicos na UE. Sugeriu que a maioria dos países tem o mesmo interesse, mas alguns na UE parecem opôr-se;
- As contribuições de largas somas de dinheiro para a União Europeia deixarão de existir;
- Vontade de negociar um acordo de Livre Comércio entre as partes. No entanto, é clara: Não pode ser nos moldes do Mercado Comum, porque, em princípio, isso envolve outros compromissos como, por exemplo, a liberdade de movimento entre a UE e o Reino Unido. Deseja inovar uma forma de estabelecer comércio;
- Apelou à sensatez, ao facto de ser desnecessário um conflito político entre as duas partes, e ao facto de não ser benéfico para nenhuma das partes se a UE quiser dar um tratamento punitivo ao Reino Unido como exemplo dissuasor face aos restantes países que ameaçam sair da UE - May foi clara: não haver acordo é melhor do que um mau acordo, e afirmou que o Reino Unido não aceitará tal atitude punitiva por parte da UE;
- A cooperação em termos de segurança é necessária e apetecível, e o Reino Unido é líder nesse campo;
- Manifestou a esperança e a confiança que tem em que as duas partes cheguem a um acordo racional, um acordo que beneficie tanto o Reino Unido como a União Europeia, e que ambos sejam bons parceiros no futuro.
Parece, portanto, haver a indicação de que haverá um 'Hard Brexit', ou seja, uma saída da União Europeia a todos os níveis. Mas há também muito otimismo pela parte de May, que acredita que um acordo inovador e excecional pode ser feito. Ora, obviamente que isso é possível e, creio eu, desejável. Mas será provável? Terá a União Europeia interesse político num acordo tão amigável com o Reino Unido? Conseguirá o Reino Unido tantos privilégios (ainda mais do que os que tinha enquanto membro) com tão poucas contrapartidas? Quanto jogo político estará envolvido no processo, quanta estratégia de curto-prazo afetará o resultado? Qual é a boa vontade das partes negociantes? No fim de contas, queremos saber: como será o futuro, qual será o resultado de dois anos de um processo de saída com muitas negociações à mistura?
Ao leitor, resta-me deixar perguntas sem respostas, porque estes últimos tempos têm sido de previsões pouco certeiras. Eu deixei-me amedrontar pela incerteza, e prefiro deixar as previsões para os tarólogos. Esses pelo menos falham sem que deles se espere que acertem.
S.G.

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