Novo Ano, Novo Congresso

Hoje, dia 3 de Janeiro de 2017, toma posse o 115º Congresso dos Estados Unidos da América. Para assinalar a efeméride, vou fazer algumas previsões sobre o que acontecerá na legislatura e quem serão os seus protagonistas do lado do partido maioritário nas duas Câmaras.
O Partido Republicano moldado pelo radicalismo do Tea Party conseguiu pela primeira vez um Presidente, mas o desnorte pós-Bush determinou que esse homem seria um mutante pseudo-conservador que vai contra quase todos os valores do movimento de direita conservadora, que teve humildes origens nos bolsos dos principais bilionários americanos. No entanto, poder é poder, e os Republicanos não o vão querer desperdiçar. Destruir e substituir o Obamacare, reduzir as regulações do sistema financeiros e da proteção ambiental, proteger a fronteira, simplificar o sistema fiscal e reduzir o défice são alguns dos objetivos ambiciosos a que se propõe esta legislatura (de notar que uma aproximação à Rússia, uma guerra comercial com a China, a saída da NATO, construir um muro ou um extensivo plano de obras públicas não estão nos planos dos congressistas Republicanos, mas sim de Trump, que terá dificuldade em levar a melhor sobre o orgão legislativo) . A liderar estas iniciativas, estará o ideólogo conservador-libertário Paul Ryan, Speaker da Câmara dos Representantes, que, secundado pelo apático mas eficaz líder do Senado Mitch McConnell, e pelo Vice-Presidente Mike Pence, deverá levar para a frente esta agenda.
Havendo alargado consenso no GOP quanto aos objetivos-base para a legislatura, as personalidades-chave deverão ser as pessoas que tentarão dificultar ou facilitar a vida de Trump. Quanto à mudança na atitude dos EUA em termos de política externa, a aproximação a Israel deverá ser muito bem recebida pelo seu partido; já uma alteração nas relações com a Rússia e com os parceiros da NATO tem sido altamente criticada no Senado. John McCain, Lindsey Graham, Susan Collins, Marco Rubio, entre outros, têm sido críticos da abordagem do Presidente eleito e, visto que a maioria Republicana é de 52-48, bastarão 3 deserções para deitar abaixo qualquer projeto, ou mesmo Secretário de Estado, que vá contra o atual papel dos EUA no Mundo. Este é o principal problema de Trump para tornar a sua agenda realidade: é que em qualquer dos seus assuntos mais queridos em campanha, terá no Senado no mínimo 3, e no máximo 14, inimigos dentro do próprio partido. Sim, há 14 Senadores que se mostraram radicalmente opostos a uma ou mais das propostas de Trump em campanha e são só os Republicanos. Por isso, é para estar atento a estes 14 que divergem entre conservadores radicais, moderados e libertários , pois serão eles a determinar se esta Presidência é ou não um falhanço. As minhas previsões para estrelas da legislatura são:
- Susan Collins, que está há 19 anos a afastar-se do radicalismo em que o GOP está a cair e que ainda acaba a legislatura no Partido Democrata;
- Cory Gardner, que será responsável pela gestão das campanhas para 2018. O mapa daqui a dois anos será muito favorável aos Republicanos e, se conseguir uma grande vitória, o moderado Senador do Colorado poderá tornar-se num líder do Partido e tentar trazê-lo de volta às origens em 2020.
- John McCain tem um último mandato de 6 anos para cumprir e não tem nada a perder. O seu desdém pessoal pelo Presidente poderá torná-lo o líder da ala anti-Trump.
- Rob Portman, o mais acérrimo defensor do comércio livre no Partido, deverá ter uma acesa guerra com a Casa Branca e com a sua política isolacionista.
Certamente notou que não prevejo que nenhum Senador pró-Trump ganhe com esta Presidência, porque o único que realmente o era já foi escolhido para Procurador-Geral (Jeff Sessions). Ninguém no Senado se sentirá ideologicamente confortável a ser "papagaio"do Presidente, mas muitos o farão para obter dividendos eleitorais, porque Trump é agora, infelizmente, o dono da "alma do Partido". Mais provável será que na Câmara dos Representantes (onde todos os membros vão a votos de 2 em 2 anos) haja mais apoio para o excêntrico chefe do ramo executivo, até porque a Câmara em si é mais excêntrica, mas nada acontecerá sem o Senado.
João Jonet
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