França 2017: Contas baralhadas


Nas últimas semanas os partidos franceses tradicionais têm visto as suas hipóteses de chegar ao Eliseu dissiparem-se.

Os Socialistas elegeram Benoît Hamon como seu porta-estandarte para Abril, preterindo o centrista ex-primeiro ministro Manuel Valls. Com uma mensagem que visa aumentar bastante os benefícios sociais concedidos pelo Estado, Hamon segue na linha de Jeremy Corbyn e Bernie Sanders, que tentam, sem sucesso, trazer de volta uma esquerda que foi morta e enterrada pelos resultados incrivelmente positivos que o liberalismo tem conseguido desde o fim da década de 70. A mensagem de que ao povo tudo é devido custe o que custar passou para a esquerda radical e, curiosamente, para a extrema-direita (que propõe um Estado Social racista). Ninguém dá muitas hipóteses a Hamon, mas a França é muito menos liberal que os EUA ou o Reino Unido, por isso é possível que mais perto de Abril muita gente tenha abraçado as ideias de Hamon, coisa que certamente não acontecerá nem com Corbyn nem com Sanders ou Elizabeth Warren. Neste momento, Hamon é considerado impossível de eleger e alienou a ala moderada do PS que Valls encabeçou, levando-a para os braços do independente Emmanuel Macron (ex-PS e ministro da Economia de Hollande).  Hollande pode ser muito criticado, mas poderá ter sido o último político socialista a unir estas duas alas do partido antes da sua aparentemente inevitável destruição.

Já do lado dos Republicanos, Fillon (o incorruptível) viu ser iniciada uma investigação muito pessoal. Parece que o candidato contratou a sua mulher para trabalhar no Parlamento em circunstâncias duvidosas, não sendo claro qual seria de facto a função da senhora. Os políticos franceses costumam ser relativamente imunes a escândalos destes (o nepotismo, a corrupção e as infidelidades estão algo normalizados), mas não estamos propriamente numa altura em que as regras da política se façam cumprir. Tem-se falado da hipótese de Fillon desistir, o que seria perigosíssimo. Há muito eleitorado que vota nos Republicanos por tradição, estando ideologicamente mais próximo da Frente Nacional; se Fillon libertasse esses monstros, Le Pen poderia ficar com caminho aberto para o Eliseu. Melhor para Macron agora seria que Fillon se desviasse mais para a direita, alienando o centro do seu Partido e dividindo a Frente Nacional - ficou provado em 2012 com Sarkozy que não se ganha com essa estratégia, mas Fillon podia martirizar a sua campanha moribunda pela democracia francesa. Como verdadeiro patriota, acho que não lhe custaria muito.

Emmanuel Macron é o candidato que as sondagens parecem favorecer numa segunda-volta, apesar de o mais provável ainda ser nem chegar lá. A sua mensagem centrista e liberal dá voz exatamente ao que é preciso para salvar e reformar a ordem mundial vigente sem destruir tudo o que se andou a construir nos últimos 70 anos. O facto de estar impoluto e de ser jovem também é bastante importante para o tornar atrativo a quem não costuma votar , um pouco como Obama. Defender sem hesitar a globalização é o que se pede, tal como uma mensagem social progressista que acompanhe a marcha dos tempos. Fillon só preenche o primeiro requisito, portanto não me parece que seja a ator de mudança de que o Mundo (e a Europa principalmente) precisam à frente de França. Por fim, o facto de Macron ser um independente dá-lhe a aura anti-establishment que a extrema-direita deseja para disfarçar o facto de ter uma mensagem neo-nazi.

Se queremos aprender com Trump e com o Brexit, temos de dar às pessoas o que elas querem: Mudança. Não uma mudança radical que destrua tudo à sua frente, mas uma mudança sensível aos problemas que enfrentamos num Mundo globalizado, que não caia em populismos e que, em vez de dar cabo de tudo o que se tem feito, remende e construa, abraçando o passado sem se coibir de o criticar quando é preciso e caminhando para um futuro em que o ódio baseado na raça, religião ou orientação sexual saiam outra vez do discurso político normal e civilizado.

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