Novo Ano, Novo Congresso II ou (O Futuro do Partido Democrata)

Começou recentemente a 115ª sessão do Congresso dos EUA e será nesta legislatura histórica que se decidirá muito do que será o futuro papel da maior potência global no Mundo, mas também se a nível interno tudo o que se fez nos últimos 8 anos será ou não destruído. Para defender o legado de Obama e/ou os valores do eleitorado que deseja, o Partido Democrata vai ter de sair do estado depressivo e desorientado em que se encontra e decidir qual vai ser a estratégia para lidar com Trump.
Já escrevi sobre a divisão principal que atormenta o Partido Democrata aqui. O clássico combate entre sulistas moderados e progressistas urbanos é a maior divisão interna , desde que em 1948 Hubert Humphrey iniciou a luta para mudar a matriz original do Partido (ou pelo menos uma parte dela), deixando para trás a defesa do racismo, da discriminação e dos direitos estaduais que nele estavam entranhados desde a sua criação. Neste momento, o confronto parece muito mais complexo que isto, mas esta dicotomia é sempre a razão de fundo para os conflitos.
O que se passa neste momento nos Democratas passa-se no resto do Mundo. Bernie Sanders tornou-se um líder do Partido, fazendo uma acérrima defesa dos trabalhadores e dos mais pobres. Tal como Jeremy Corbyn, é uma imagem dos partidos socialistas do século passado, populistas e de massas, que eram verdadeiros defensores do povo. Ao contrário de todos os outros guerreiros pela justiça social, Corbyn e Sanders não se venderam ao caviar e continuam a defender soluções para a sociedade que são claramente impraticáveis e indesejáveis. No entanto, as pessoas sentem-se injustiçadas pela globalização, não se adaptaram bem à mudança dos tempos e precisam que alguém os defenda de um futuro de que têm medo. Tal como nos anos 30, as pessoas veem apenas na esquerda radical e no nacionalismo aliados e defensores. Os liberais, os conservadores, o centro-esquerda e o centro-direita é que os puseram nesta situação, logo só quem está fora dessa zona da sanidade política, só quem está na sarjeta do radicalismo ideológico, é que estará "limpo" para defender os interesses do povo. Não interessa se "esta situação" é o período com mais alargada e justa prosperidade na História; na política interessa cada vez menos o que se sabe e cada vez mais o que se sente. Sanders explora esta mudança dos tempos, e atrás de si traz a Senadora Elizabeth Warren para cantar a cantiga do coitadinho. E as pessoas acreditam. Estes dois, mais um grupo de discípulos, farão grandes discursos a condenar o Presidente Trump, estarão sempre à frente das câmaras, mas trabalharão com a Administração para salvar artificialmente a industria do carvão, para proteger artificialmente as pessoas contra as diretivas do mercado de consumo e remarão contra a História. Um deles será candidato em 2020 e tentará roubar a base de Trump que já foi Democrata, a classe trabalhadora branca. Mas essa base já se sentiu traída pelo Partido Democrata, e se a mensagem é igual à de Trump, porquê voltar?
O futuro do Partido Democrata não deverá ser garantido por septuagenários que aspiram copiar a Suécia: isso é anti-americano e anacrónico e permitirá mais 4 anos de destruição do papel dos EUA no Mundo e do que parece que será um Estado oligárquico.
Sanders e Warren serão certamente figuras desta legislatura, Chuck Schumer, o novo líder do Partido no Senado, permiti-lo-á. Schumer é um homem muito pouco ideológico, que parece estar decidido a unir dentro do Partido uma mensagem protecionista e outra liberal, uma para septuagenários e outra para universitários, uma para o mundo rural e outra para o mundo urbano. Parece uma loucura, mas os Democratas conseguiram este equilíbrio nos últimos 80 anos. Até que uma bola de demolição com dificuldades em falar inglês e uma cabeleira dourada destruiu a sagrada coligação entre atores de cinema e agricultores, entre nova-iorquinos e pessoas de cidades tão pequenas que nem têm um gentílico. Hillary já previa isto, por isso é que se virou para Estados Republicanos e cosmopolitas como a Geórgia ou a Carolina do Norte. Schumer está em negação e isso não vai ser bom, os Democratas têm de virar a página, deixar de pensar no Midwest e nos operários, eles são Republicanos enquanto Trump o for, e têm de se afirmar como um Partido urbano, defensor das minorias, liberal, pró-globalização e pró-comércio livre. Esse foi o caminho que os Clintons seguiram, que Obama seguiu e é esse que faz sentido, tanto até em termos demográficos.
Muita gente passou dos Democratas para os Republicanos, mas poucos fizeram o caminho inverso, talvez por ódio a Hillary. Se o GOP continuar a desviar para território desconhecido, os Democratas terão de ocupar o centro e aí ganharão quase todas as eleições, se se barricarem na esquerda deixam o centro aberto e o eleitorado profundamente dividido. Depois da Guerra Civil e até à Grande Depressão, o Partido Republicano ganhou quase todas as eleições porque ocupou o centro, está na altura das pessoas do outro lado do espectro lerem um livro de História.
Schumer poderá servir para passar a mensagem clara que os Democratas precisam, pois é um homem muito pragmático, mas tem de deixar morrer a ala do Partido que se agarra à classe operária e aos agricultores, porque isso é passado. Já Nancy Pelosi, líder Democrata na Câmara dos Representantes há 14 anos, até tem essa mensagem liberal que se pretende; no entanto, está muito desgastada, tem dificuldade em fazer compromissos e está demasiado à esquerda em termos sociais para ser aceite pelo grande público. Na Câmara baixa, tem pouca oposição, porque faltam figuras ao Partido. Já no Senado, estão, para mim, aqueles que serão as figuras desta legislatura e o futuro do Partido Democrata. São eles:
- Cory Booker: carismático, afro-americano, erudito... onde é que já vimos isto... Booker discursou na Convenção em Julho e foi muito elogiado, tendo traçado uma caminho para o Partido muito parecido como o que eu disse que era o ideal há umas linhas atrás. Senador por New Jersey, tem especial desdém pelo Presidente-eleito que perpetrou a maioria das suas burlas naquele Estado. A seguir com muita atenção.
- Kamala Harris: Recém-eleita Senadora pela Califórnia a tecnocrata com origens na Jamaica e na Índia, é o sonho demográfico do Partido. Enquanto não é candidata à Presidência, deverá ser a defensora dos valores cosmopolitas e liberais do Partido e dificultar muito a vida a um Presidente que é um insulto a qualquer mulher com algum amor-próprio.
Harris, Booker, Warren e Sanders, muito dificilmente mais de dois destes vão ficar de fora das próximas primárias. O Partido está carenciado de figuras com menos de 70 anos e ganhou muito poucas eleições nos últimos 6 anos, logo não há imenso por onde escolher. Para além disso, alguns grandes nomes para 2020, como o Governador de Nova Iorque Andrew Cuomo ou Governador do Colorado John Hickenlooper, não entram nestas contas por razões óbvias. Se os Democratas forem pelo "Sanderismo", é o fim da ordem mundial como a conhecemos; se escolherem qualquer um dos outros ainda há esperança.
João Jonet
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