Je suis Charlie, ma non troppo!
Os mais recentes acontecimentos levaram-nos a partilhar frases de apoio (sentidas, não duvido) aos povos europeus que sofreram os mais desprezíveis ataques à dignidade humana e aos valores democráticos que caracterizam (a maior parte d)o Velho Continente, já abordados neste Blog. Duas vezes França, Turquia, e agora a Bélgica. O primeiro desta série de atentados incendiou (como quase tudo incendeia) as redes sociais, e não havia quem não fosse Charlie. É sobre este fenómeno que quero escrever, e não tanto sobre os indubitavelmente vergonhosos ataques terroristas que, a pouco e pouco, vão alimentando a aparente dicotomia liberdade/segurança.
Parece que este povo do cantinho da Europa gosta muito de se afirmar Charlie (afinal, não houve durante muito tempo melhor gerador de likes do que a moda da fotografia de perfil "Je Suis Charlie").
Facilmente me apercebi de que os portugueses são Charlie, mas não praticantes.
Tudo isto para chegar à liberdade de expressão. O tema não é novo, mas o seu significado parece estar bastante turvo na mente do luso. Todos se dizem a favor deste bonito Direito Fundamental, que é o da liberdade de expressão, mas, gradualmente, deparamo-nos com a triste realidade de que poucos são os que verdadeiramente apoiam este valor. Imediatamente após os ataques à redação do Jornal Charlie Hebdo, as mesmas pessoas que se diziam indefetivelmente Charlie não hesitaram em relembrar que quem goza com a religião de outras pessoas "está a pedi-las". Muitos são os que, sentindo-se ofendidos com determinada opinião, imediatamente alegam que não se trata de liberdade de expressão, mas de um insulto propositado e inaceitável, e facilmente apelam à censura, embora raramente utilizem o termo. Ora, este conceito de "Viva a liberdade de expressão, desde que não ofenda determinada fação da sociedade!" é exatamente aquilo que a liberdade de expressão NÃO significa. O que há de liberdade quando apenas os razoáveis têm direito à palavra? E há um problema maior: quem determina o que é razoável e o que é "estar a pedi-las"? Se a liberdade de expressão é alguém poder dizer aquilo que uma entidade superior acha que eu gosto de ouvir, então esse conceito de liberdade de expressão é bastante paternalista.
Há, também, aqueles que não são Charlie (mesmo que digam que o são) porque assumem a atitude do democrata compreensivo que, mesmo não se tendo ofendido com determinada opinião, relembra que há suscetibilidades que podem ter sido feridas. É a brilhante estratégia do autoritário mascarado de tolerante. Ainda há poucas semanas, assistimos a uma enfurecida manifestação de falsos Charlie, que se sentiam ultrajados pela publicação de um cartaz do Bloco de Esquerda acerca da filiação de Jesus Cristo. Nada de errado. Eu próprio achei o cartaz de mau gosto e, sobretudo, pouco inteligente. Grave foi a exigência que se seguiu. É que, aparentemente, o que é ultrajante deve ser retirado (leia-se, censurado), e foi exatamente isso que foi exigido pelos milhares de Charlie-não-tão-Charlie por este país fora. E os exemplos que poderia dar são bastante numerosos, alguns irrepreensivelmente abordados por Ricardo Araújo Pereira no seu último artigo da Visão, e por mais um ou dois verdadeiros Charlie deste país.
Certo é que o problema não é meramente nacional, mas nota-se uma assustadora falta de sentido de liberdade por cá. Convém perceber que ou somos Charlie, ou há limites para a liberdade de expressão. Os dois em simultâneo não é possível. A virtude está em saber distinguir o sensato do insensato por nós próprios, e não em apelar à censura, por mais que a tentemos eufemizar.
S.G.
Parece que este povo do cantinho da Europa gosta muito de se afirmar Charlie (afinal, não houve durante muito tempo melhor gerador de likes do que a moda da fotografia de perfil "Je Suis Charlie").
Facilmente me apercebi de que os portugueses são Charlie, mas não praticantes.
Tudo isto para chegar à liberdade de expressão. O tema não é novo, mas o seu significado parece estar bastante turvo na mente do luso. Todos se dizem a favor deste bonito Direito Fundamental, que é o da liberdade de expressão, mas, gradualmente, deparamo-nos com a triste realidade de que poucos são os que verdadeiramente apoiam este valor. Imediatamente após os ataques à redação do Jornal Charlie Hebdo, as mesmas pessoas que se diziam indefetivelmente Charlie não hesitaram em relembrar que quem goza com a religião de outras pessoas "está a pedi-las". Muitos são os que, sentindo-se ofendidos com determinada opinião, imediatamente alegam que não se trata de liberdade de expressão, mas de um insulto propositado e inaceitável, e facilmente apelam à censura, embora raramente utilizem o termo. Ora, este conceito de "Viva a liberdade de expressão, desde que não ofenda determinada fação da sociedade!" é exatamente aquilo que a liberdade de expressão NÃO significa. O que há de liberdade quando apenas os razoáveis têm direito à palavra? E há um problema maior: quem determina o que é razoável e o que é "estar a pedi-las"? Se a liberdade de expressão é alguém poder dizer aquilo que uma entidade superior acha que eu gosto de ouvir, então esse conceito de liberdade de expressão é bastante paternalista.
Há, também, aqueles que não são Charlie (mesmo que digam que o são) porque assumem a atitude do democrata compreensivo que, mesmo não se tendo ofendido com determinada opinião, relembra que há suscetibilidades que podem ter sido feridas. É a brilhante estratégia do autoritário mascarado de tolerante. Ainda há poucas semanas, assistimos a uma enfurecida manifestação de falsos Charlie, que se sentiam ultrajados pela publicação de um cartaz do Bloco de Esquerda acerca da filiação de Jesus Cristo. Nada de errado. Eu próprio achei o cartaz de mau gosto e, sobretudo, pouco inteligente. Grave foi a exigência que se seguiu. É que, aparentemente, o que é ultrajante deve ser retirado (leia-se, censurado), e foi exatamente isso que foi exigido pelos milhares de Charlie-não-tão-Charlie por este país fora. E os exemplos que poderia dar são bastante numerosos, alguns irrepreensivelmente abordados por Ricardo Araújo Pereira no seu último artigo da Visão, e por mais um ou dois verdadeiros Charlie deste país.
Certo é que o problema não é meramente nacional, mas nota-se uma assustadora falta de sentido de liberdade por cá. Convém perceber que ou somos Charlie, ou há limites para a liberdade de expressão. Os dois em simultâneo não é possível. A virtude está em saber distinguir o sensato do insensato por nós próprios, e não em apelar à censura, por mais que a tentemos eufemizar.
S.G.
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