França 2017: O Regresso, O Super-Político e o Emplastro

Os Republicanos (ex-UMP, por sua vez ex-RPR, por sua vez ex-UDR... vou parar, mas, só para que saibam, isto ainda tinha tido mais três nomes) são o novo Partido da direita Francesa, fundado em 2015 por Sarkozy, que basicamente reformulou a UMP. Herdeiros da herança do Gaulismo (culto pouco saudável de Charles de Gaulle, parecido com o culto de Ronald Reagan nos seus homólogos americanos) e das suas ideias de patriotismo e visão para a República. Ao bom estilo de Sarkozy, que criou este Partido e lançou dois livros no último ano para tentar relançar a sua imagem, não se percebe bem os ideais que regem esta força política, estando entre a Democracia Cristã da CDU na Alemanha e o rejuvenescido Liberalismo Conservador apregoado por David Cameron. Sarko voltou mais agressivo, com uma mensagem que apela ao controlo das fronteiras e tenta entrar mais em contacto com os seguidores da Frente Nacional de Le Pen do que com o centro. O problema é que os franceses estão fartos do marido de Carla Bruni e já estavam quando o correram do Eliseu em 2012. A sua inconsequência política, que privilegia ações muito mediáticas e desnecessárias e despreza reformas estruturais que são realmente necessárias por não serem tão "atraentes" para o eleitorado e a imprensa, levou os franceses ao desespero.
Mesmo com todos os seus defeitos, o ex-Presidente parecia ter tudo para se juntar a Hillary, May e Merkel, numa quadrilha maravilha de líderes mundiais de salto alto. Até que aparece Alain Juppé. O Presidente da Câmara de Bordéus, ex-Primeiro-Ministro e Ministro durante as presidências de Chirac e Sarkozy, é o político mais popular de França, admirado pelo seu discurso focado na união e não na divisão (ao contrário de Sarkozy), pela sua competência e experiência. No meio disto tudo, temos o ex-Primeiro-Ministro François Fillon que, apesar do seu incontestável peso na política francesa, não parece ter capacidade para se intrometer neste duelo de titãs.
O candidato dos Republicanos será muito provavelmente o vencedor das Presidenciais. Por isso, a primária deste Partido acaba por ser a mais importante deste ciclo. Alain Juppé é quem tem maior margem nas sondagens e, para além disso, a sua aura de político pragmático e estadista experimentado parece ser o que os franceses querem neste momento. Sarkozy e a sua vontade de dar espetáculo parecem ter enjoado os franceses, que sempre preferiram políticos experimentados e respeitáveis na Presidência.
Por outro lado, Juppé mostrou até agora muito poucas ideias e Sarkozy tem andado a propagar uma agenda insistentemente no último ano, por mais contraditória que seja. Enquanto que Juppé seria uma viragem ao centro, Sarkozy seria virar à direita e a escolha entre os dois coloca outro dilema interessante: será que os franceses ainda são federalistas europeus como Juppé, ou estarão a ficar mais euro-céticos como Sarkozy. Escolhas difíceis de uma campanha que será certamente muito divertida de acompanhar.
João Jonet
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