Segredos a mais, verdade a menos



Ontem, Hillary Clinton sentiu-se mal num evento de homenagem às vítimas dos ataques do dia 11 de Setembro de 2001. A candidata saiu rapidamente da cerimónia, perdendo as forças quando entrava no seu carro. O que é que isto interessa num mundo ideal em que as campanhas são sobre ideias? Nada. O que é que isto interessa na eleição de 2016? Muito, mesmo muito.
Hillary Clinton será, quando tomar posse, a segunda pessoa mias velha a assumir o cargo. Com 69 anos, será ultrapassada por Reagan apenas por meses. Já Trump seria o Presidente mais velho de sempre se fosse eleito.
É portanto legítimo questionar se os candidatos terão capacidade física e mental para cumprir com os extenuantes requerimentos do trabalho mais difícil do Mundo. O primeiro a dar sinal de fraqueza será certamente punido nas sondagens, e quem começou foi Hillary.

O incidente tem grande impacto mediático, mas não custa uma eleição. O que pode custar uma eleição é desonestidade e falta de vontade para partilhar informações relevantes com o eleitorado. A nomeada democrata já tem fama disso, e o facto de ter escondido a sua pneumonia de forma absolutamente desnecessária só vem alimentar esta ideia. O escândalo dos e-mails parece mais amadorismo que outra coisa e não existem muitas provas de que Clinton seja uma pessoa particularmente corrupta, mas a aura de "Washington Insider" e a ideia de desonestidade parecem falar mais alto que os factos.

Vivemos numa era em que os factos são postos de parte, em que não importa o que é verdade, mas o que as pessoas sentem, mesmo que não tenha qualquer cabimento. Assim se fez o Brexit, assim se fez o Trumpismo, assim crescem os movimentos extremistas na Europa, tanto à esquerda como à direita.
Numa sociedade que já não quer saber dos factos, que não acredita na imprensa e nas elites intelectuais, que acredita que tem as respostas todas, apesar de pouco saber, dar a ideia que se é desonesto é tão mau como o ser. Esta "obsessão pouco saudável com a privacidade" (nas palavras do conselheiro de Obama e comentador da CNN David Axelrod) poderá ser a ruína de Hillary, muito embora a corrida pareça mais que segura neste momento.

Não deixa de ser curioso que Trump seja uma aldrabão de muito maior renome, que de facto espoliou clientes e prestadores de serviços, mas não seja visto como uma pessoa tão dissimulada como a sua adversária. Tudo porque diz "o que as pessoas têm medo de dizer" (um grande elogio nalguns grupos da direita americana) que, traduzido para miúdos, quer dizer: um chorrilho de insultos a todos os grupos da sociedade que o "americano médio" SENTE que o estão a ultrapassar e a ser beneficiados pelo Estado (apesar de este sentimento não ter qualquer base factual e de as pessoas que nós temos como americanos médio serem uma percentagem pouco significativa da população).

Fica o conselho, Senhora Secretária, ao menos dê o ar de ser honesta, que já é meio caminho andado.

João Jonet

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