Uma Crescente Simpatia pela Secretária


À medida que o tempo passa, fraqueza minha ou mérito de Hillary Clinton, vou sentindo uma crescente simpatia pela Secretária. Sim, os mais práticos e experientes dirão que é apenas uma reação desesperada à perspetiva de ter Trump na liderança do mais importante executivo do mundo. Talvez seja verdade.

Mais verdade ainda é que isso pouco interessa. Se é fruto de um estímulo fatalista, ou genuína solidariedade minha, a verdade é que Clinton - o robot desumano sem carisma, o bicho Washingtoniano corrupto, a fraca figura incoerente e sem palavra - tem conseguido, passo a passo, pé ante pé, penetrar num terreno vagamente emocional, altamente volátil e indefinido, mas que pode ganhar muitos votos, se com os eleitores americanos se verificar este estranho fenómeno que ainda toma as suas proporções iniciais em mim.

Não é admiração, pois a razão, mesmo que perturbada por um laivo de emotividade política, não permitiria tal coisa. Não é entusiasmo político, porque todos sabem mais ou menos o que esperar de HC. É, antes, uma espécie de desabafo que não se exprime por palavras, mas por um compreensivo e solidário ato de lamento pela situação em que a candidata Democrata se encontra. Foi ao ver o debate de terça-feira que me apercebi disto.

É que, ao longo de duas horas de debate, fui fazendo um útil exercício de empatia. E o que em mim havia desprezo pela ex-Primeira Dama foi-se transformando em compreensão e aceitação. Não que a minha ideia fria e distanciada de Hillary tenha mudado muito, mas o contexto e a prestação de ambos os candidatos no debate levou-me a esta mudança de espírito. E foi através do exercício de empatia que confirmei a verdade de um provérbio sábio: "Contra a estupidez não há argumentos." A perceção de que é muito mais difícil ser convincente quando o nosso opositor tem um discurso tão básico quanto possível foi-se tornando, cada vez mais, uma certeza. 

Trump não precisa de pensar, de dizer a verdade, de fazer contas, de ser sensato e tem quase 40% dos votos assegurados. Mas este não é o maior problema, porque, se Hillary adotasse uma postura semelhante, também teria uma grande percentagem de votos garantidos. O problema é que, quando apenas um dos elementos é que debate, a discussão torna-se inútil e pouco esclarecedora. Por mais fortes que sejam os meus argumentos, por mais reveladoras que sejam as minhas denúncias, por mais inspiradora que seja a minha mensagem, num debate, estes fatores só se tornam claros quando contrastados com os do outro candidato. Mas quando a prestação do outro candidato é equivalente à de uma criança que fecha os ouvidos e grita "LALALALA, não estou a ouvir!", que não rebate, que não questiona, mas que faz do confronto um comício Republicano, i.e., um aglomerado de gente fanática e ignorante em que se gritam chavões com fraca correspondência com a realidade, é difícil conseguir demonstrar o valor de uma candidatura.

E apesar de tudo, eis que Hillary Clinton nos surpreende a todos com uma atitude serena e racional, mas sem a imagem fria que lhe é reconhecida; com uma elevação que humilhou os modos de Trump; com argumentos e números; com humor e provocações finas; com uma postura presidencial.

Hillary Clinton é uma má candidata, não seja o leitor levado a crer o contrário pelo que aqui foi escrito. No entanto, num misto de emoções provocadas pelo contexto, reconheço-lhe valor, especialmente porque não gostaria de estar no lugar dela, a disputar o cargo presidencial contra Trump. Não é que me sinta diminuído, ou inseguro, quando comparado com Donald Trump (talvez na conta bancária), mas porque sei quão difícil é provarmos que temos razão quando discutimos com um idiota.

S.G.

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