Aparece o Presidente


Com um discurso mal estruturado e com algumas mentiras (como já é hábito), mas polido, unificador e ligeiramente mais otimista, que disfarçou bem o nefasto nacionalismo e populismo que enche a agenda desta Administração, Donald Trump apresentou-se ao 115º Congresso como se devia ter apresentado ao Mundo no dia da sua inauguração. Tirando as críticas a acordos de comércio livre como a Parceria Trans-Pacífica, as referências a investimentos na infraestrutura, críticas ao intervencionismo americano e o já habitual muro - este poderia ter sido um discurso dado por Ted Cruz, John Kasich, Jeb Bush ou Marco Rubio. As suas divergências com o Republicano comum esbateram-se, mas os momentos em que as ressalvou deram-lhe uma aura de independência e vontade de alcançar consensos bi-partidários. Antes do discurso, Trump tinha dito que estava aberto a criar um caminho para a legalização de imigrantes ilegais que cumprissem determinados requisitos, outro sinal de que pode estar a caminho uma maior moderação por parte da Administração.

Naturalmente, depois de um mês caótico em que Trump viu os níveis de aprovação caírem para níveis historicamente baixos, a vontade de reiniciar era muita. Parece-me que em grande medida o tom presidencial e a mensagem mais "soft" que se ouviu na sessão conjunta do Congresso serviu esse desejo.

Entre as promessas contam-se a vontade de substituir o "Obamacare" com um sistema que dê mais liberdade de escolha ao consumidor,  eliminar o "Daesh", tornar o país mais seguro e livre de drogas, tornar a educação mais orientada para o mercado, criar mais empregos, tornar a entrada de imigrantes mais seletiva e investir em infraestrutura. Todas estas propostas vagas são uma incógnita no que toca à sua possível execução, e para além disso não parecem particularmente fáceis de cumprir. Com todas as suas falhas, a lei que deu a possibilidade de dar serviços de saúde aos americanos  dificilmente será substituída por algo que dê uma cobertura mais ampla e acessível; erradicar o "Daesh" não parece ser possível, mas não deixa de ser preocupante que o plano pareça ser usar Assad, Putin e os seus crimes contra a humanidade para conseguir este objetivo; construir um muro ou aumentar o orçamento das forças armadas não servirá para tornar o país mais seguro e só aumentará o défice; liberalizar a educação irá contra os interesses da classe média baixa que lhe entregou a eleição e tem, normalmente, resultados pouco conclusivos; reduzir impostos para níveis irresponsáveis num país em pleno emprego muito provavelmente causará uma crise e não mais emprego; banir pessoas de países onde não se tem negócios, mas contra os quais se tem preconceitos xenófobos não torna a imigração mais meritocratica.

É importante reparar que Trump não falou de um único país estrangeiro durante o seu discurso, dizendo que o seu trabalho é representar os EUA e não o Mundo. A falta de referências a política externa e o anunciado corte de 37% no Departamento de Estado (Ministério dos Negócios Estrangeiros) mostra a falta de crença na diplomacia e no papel global dos EUA que tem este novo Presidente.

Uma nota para um dos momentos da noite, quando Trump se humaniza ao contar a história da viúva de um soldado americano presente na plateia, o que valeu uma grande ovação. Ignora-se o facto deste soldado ter morrido numa operação precipitada que esta Administração mandou avançar de forma atabalhoada.

Por fim, falar dos Democratas, que tiveram muito material para aplaudir num discurso que tocou em muitos pontos que lhes são queridos, mas não o fizeram por ódio à personagem que proferia a mensagem. A divisão política dos EUA parece perigosamente vincada neste momento. Percebe-se o ponto da oposição, que vê Trump discursar como um independente, mas governar como um Republicano radical. Seria, no entanto, inteligente aproveitar o momento para aliviar o clima de tensão, aplaudindo até com alguma ironia propostas Democratas no discurso de um Presidente Republicano.

Foi um dia bom para Trump, que nunca pareceu tão presidencial, mas a batalha será longa e dura e será preciso passar das palavras aos atos, porque a governação diária tem sido desastrosa.

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