Populismo em retirada


Ao longo das últimas semanas temos assistido a sinais muito positivos no caminho para as eleições holandesas (15 de Março) e francesas (23 de Abril e 7 de Maio). Se em França Macron reduziu a desvantagem à primeira volta para Le Pen - de 4% para 1% - e aumentou a vantagem na segunda volta de 18% para 28%, no país das túlipas os liberais do primeiro-ministro Mark Rutte (VVD) ultrapassaram, ganhando três e empatando uma das quatro sondagens conduzidas nos últimos dias  ao partido de direita radical de Geert Wilders (PVV).

Começando por França, onde estamos cada vez mais próximos da primeira eleição sem o maior partido de centro-esquerda ou de centro-direita da V República, muito graças aos problemas de Fillon: apesar de se estar a notar uma recuperação do ex-primeiro-ministro nas últimas semanas, a verdade é que o facto de estar a ser ativamente investigado pela justiça francesa lhe está a tirar quase todas as hipóteses de vencer. No entanto, a sua estratégia de acusar a esquerda de uma perseguição política e a comunicação social de o prejudicar ativamente, que o leva a assumir o papel de inimigo do politicamente correto, a juntar à sua resiliência e inquestionável patriotismo, estão a mantê-lo vivo na corrida. O facto de as sondagens o darem como o único candidato de direita com hipóteses de ganhar na segunda volta pode levar a um êxodo de votantes da Frente Nacional à última da hora. Aliás, não seria a primeira vez que a extrema-direita francesa sofreria um revés desta natureza. Neste momento, as sondagens não apontam para que isso aconteça, mas com um mês e meio para a primeira volta, muito pode acontecer.

Já na Holanda, a direita populista está a experienciar a sua já habitual queda nas sondagens à medida que as eleições se aproximam.  Geert Wilders foi autorizado a voltar à campanha, mas a sua mensagem radical não parece estar a ajudar. Com o PVV a cair, não desaparecem os problemas de estabilidade governativa, pois só um conjunto de 4 a 6 partidos (dependendo da coerência ideológica desejada) conseguiria a tão desejada maioria parlamentar de 76 deputados. Atualmente, os liberais (VVD) lideram uma coligação de governo com os trabalhistas (PvDA), mas as divergências entre os dois partidos estão a ficar sobejamente calaras na campanha, com o vice-primeiro-ministro trabalhista a criticar as medidas de austeridade do governo constantemente, apesar de estar a ser responsabilizado pelas mesmas aos olhos do eleitorado (projeta-se que caíam de 2ª para 7ª força política). Com os democratas-cristãos (CDA) e os liberais mais centristas (D66) em ascensão, não se deve descartar a possibilidade de um governo de direita muito chegado ao centro, composto por estes três grandes partidos, mas, dadas as más relações entre os parceiros de governo, deve ficar complicado.
Com todos os grandes partidos menos o D66 a tornarem a sua mensagem mais nacionalista, pode afirmar-se que a direita radical não está a ser uma boa influência nesta campanha, mas com o aproximar de dia 15, é cada vez mais claro que não será Wilders o primeiro-ministro ou que a Holanda não será o segundo país a sair da União Europeia.

Macron e o líder do D66 Alexander Pechtold são, hoje, quem se levanta para defender a ordem mundial como ela está e um progresso continuado, mas não revolucionário; não caiem na hipocrisia de se fingirem nacionalistas para agradar a partes importantes do eleitorado e defendem o liberalismo com unhas e dentes. Num Mundo em que dois dos mais antigos e respeitáveis partidos do planeta (Republicano e Conservador) se têm deixado dominar por esta onda populista e nacionalista, é bom notar que ainda há pessoas que estão cá para proteger a humanidade da demagogia e de desvios irresponsáveis e mal-pensados e para reformar com inteligência, sensibilidade e respeito. É bom ver a queda dos populistas nas sondagens, é sinal de que as pessoas vão vendo o caos da Administração Trump e o real custo do Brexit na televisão e vão entendendo que, se calhar, as promessas de um mundo perfeito em que os países só dependem de si próprios eram apenas isso.

João Jonet

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