O Lápis Azul contra-ataca!


Universidade: a instituição do conhecimento, do confronto de ideias, do debate, da liberdade de pensamento e do escrutínio. Pelo menos, era isso que se pensava...

Pelo mundo ocidental fora, as Universidades têm sido contaminadas por uma febre censória protetora dos 'bons valores', zelosas daquilo que pode ser dito, e intransigentes com ideias a que são avessas. Chegámos hoje a um ponto em que a censura, ultrajante nuns casos e ridícula noutros, é pão nosso de cada dia.

O mais recente caso aconteceu em Portugal: orgulhem-se os patriotas que gostam de ver fenómenos internacionais acontecer em terras Lusas! Acontece que a Conferência "Populismo ou Democracia? O Brexit, Trump e Le Pen", que seria apresentada por Jaime Nogueira Pinto na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA, e que estava agendada para ontem, foi cancelada pela Direção da Universidade devido a ameaças de que ocorreriam cenas de violência, em consequência de protestos supostamente planeados para perturbar o apresentação de Nogueira Pinto. Isto já depois de a Associação de Estudantes ter apresentado uma moção contra um "um evento associado a argumentos colonialistas, racistas e xenófobos", referindo-se mais ao grupo organizador, chamado Nova Portugalidade, do que ao próprio Jaime Nogueira Pinto. Ainda assim, convinha à AE da FCSH perceber que é mais honrado prezar o debate de ideias do que permitir que uma ideologia se faça valer pela sua capacidade de suprimir outras ideologias, por muito estúpidas que sejam. Aqueles que querem combater o colonialismo, o racismo e a xenofobia devem ser os primeiros a querer ouvir colonialistas, racistas e xenófobos, de forma a poder depois derrotá-los com argumentos. Argumentos, não atos censórios, são o que demonstra de que lado está a razão. É um princípio fundamental das democracias liberais: ideias combatem-se com ideias, palavras que não tenham como consequência direta o incitamento a um ato danoso combatem-se com palavras. Só assim poderemos considerar sequer a possibilidade de nos aproximarmos da verdade. Calar pessoas, mesmo as mais insensatas, não erradica a insensatez. Pelo contrário, atribuiu à insensatez uma conotação positiva, oferece aos insensatos uma aura de quem é mártir da liberdade de expressão, de quem diz o que não pode ser dito. Não conhecendo de perto o pensamento de Jaime Nogueira Pinto, e sendo aparentemente cada vez mais difícil conhecê-lo (e assim será enquanto estes laivos censórios perdurarem), e conhecendo ainda menos a orientação ideológica da Nova Portugalidade (embora suspeite que se trata de coisa saudosista de um tempo de há uma mão cheia de séculos, que alguns teimam em não largar), não me arrisco a afirmar que Nogueira Pinto ou os 'Neo-Portugalistas' pertencem ao grupo dos sensatos ou insensatos, dos que dizem 'o que deve ser dito', ou dos que, por dizerem baboseiras, são hoje admirados pela sua 'frescura e audácia intelectuais'. Qualquer que seja o caso, calar um homem em Democracia não me parece o mais acertado.

Mas já que é este o tema, façamos uma viagem por este mundo ocidental. Na semana passada, a Cardiff Metropolitan University publicou uma lista de palavras que foram banidas, de forma a "promover justiça e igualdade" na Universidade. Palavras e expressões como "gentleman's agreement", "forefathers" ou "mankind" devem ser ser substituídas por expressões de género neutro. Isto lembra um bocado o Bloco e o seu Cartão de Cidadania, ou não?

Aulas de Yoga foram proibidas por serem um sinal de "apropriação cultural" de uma prática não ocidental. O mesmo se passa com refeições como Sushi - não há cá Sushi para meninos ocidentais! Como defendia Ricardo Araújo Pereira, que tem sido um notável e louvável defensor da liberdade de expressão, os que lutam contra o racismo hoje são bastante parecidos com os racistas de antigamente, de tal forma que são contra que se pratique Yoga, se coma Sushi ou se deixe crescer "rastas" no Ocidente.

Livros como Não Matem a Cotovia ou O Grande Gatsby, que abordam temas como o racismo (em ambos os casos) ou a misoginia (no segundo caso), foram desaconselhados em algumas escolas e universidades, precisamente porque tratam de temas como o racismo e a misoginia. Para a Academia de hoje, não basta não se ser intolerante: não se pode sequer falar em intolerância.
Más notícias para aqueles que dizem isto sem se rirem: é mais provável que surja intolerância de um ambiente em que as questões a ela associadas são omitidas, do que em ambientes em que se estude e se compreendam os fenómenos de intolerância e os fatores a eles associados; para combater a intolerância, devemos conhecê-la: e ambos os livros são um ótimo recurso para o estudo e compreensão, e não a apologia, da intolerância.

A lista continua, o ambiente aperta, o vocabulário vai desaparecendo, e a censura torna-se mais desenvergonhada. Ter boas intenções não justifica que se limite o discurso. As alarvidades, imbecilidades e a insensatez combatem-se com palavras e ideias de sabedoria superior, não com atos censórios cujo grau de brutalidade e tacanhez ameaçam o sentido que damos à palavra liberdade.

S.G.

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