Velha Portugalidade e o Cheiro a Mofo



Depois de toda a confusão gerada pela proibição por parte da FCSH da Conferência com Jaime Nogueira Pinto, organizada pelo grupo Nova Portugalidade, assunto sobre o qual já aqui tive oportunidade de escrever, pareceu-me apropriado perceber o que é isto da Nova Portugalidade e por que é que o representante do grupo, Rafael Pinto Borges, sendo ainda tão novo, é já tão comentado...

O nome tem muito por onde se lhe pegar... Nova Portugalidade - 2 palavras, uma é mentira e a outra é de existência duvidosa. Comecemos pela segunda - o meu computador não identifica a palavra. Fui ao reputado Priberam, e o significado é o que eu suspeitava... "Qualidade própria do que é português", tendo como significado mais profundo a expressão do que é culturalmente português. Estamos todos cheios de Portugalidade, não é assim? Eu, pelo menos, que sou português, tenho Portugalidade a rebentar pelas costuras; abro a boca e só me sai Portugalidade; transbordo Portugalidade por todos os lados...
Não será bem assim... é que já pelo nome se percebe que a coisa cheira a mofo, e até, quem sabe, a esturro. O Estado Novo não ajuda à festa... A palavra Portugalidade foi mesmo cunhada durante o Estado Novo, imagine-se com que propósitos propagandísticos... E isto leva-me à primeira palavra, "Nova". Sobre esta basta dizer-se que não reflete nada da realidade... é mentira. É que esta Portugalidade é mesmo muito velhinha, anda escondida nos armários de casa das avós, no fundo das prateleiras, à espera que um herói do saudosismo lhe venha tirar o pó de cima. Rafael Pinto Borges cumpre a missão.

O estudante da FCSH é parte de um grupo de pessoas com uma mentalidade mesmo nada nova: um saudosismo com cheirinho a mofo também - uma total ausência de perspetiva de futuro, pois apenas veem sentido na existência de Portugal do passado. As incessáveis referências ao Império, aos Descobrimentos, às invenções, a essa noção tão romântica do Quinto Império (que, fazendo sentido no contexto de há 4 séculos, hoje não há bolas de naftalina que a salvem), à grandeza dos portugueses, ao Vasco da Gama, até mesmo às colónias.  E, por isso, não espanta que a Nova Portugalidade vá buscar o nome ao Estado Novo - "Portugal não é um país pequeno!" Ahhhh, os bons velhos tempos!", choram os neo(ou paleo, são o mesmo)-portugalistas.


E também não espanta, embora, de alguma forma, surpreenda, que haja gente da idade de Rafael Pinto Borges a ajoelhar-se perante a campa de Salazar, entregando-lhe "as suas flores prediletas". Bonito, este ato! Salazar ficaria orgulhoso. E, se pudesse, colocava as flores numa jarra com água (do Luso, claro! Portugalidade Sempre!!), enquanto ouvia o "Angola é nossa". Ignorando o facto ridículo de Pinto Borges, que deve ter pouco mais de 20 anos, se fazer de viúva de um homem que morreu nos anos 60 - entregando-lhe as suas flores prediletas! Este é um facto que merece especial ressalva: Salazar não era um vendido que cheirava qualquer flor, e Pinto Borges sabe bem que não! - é importante lembrar que Pinto Borges se ajoelhou perante a campa de Salazar, não de qualquer homem! Palavras para quê? Quase em jeito de desculpa, veio dizer que admira Salazar, mas que não é salazarista! E eu ganho todo um conforto ao ouvir quem admira um ditador dizer que não admira a sua ideologia... Caro Rafael, se é para admirar a honestidade, ainda temos alguns políticos vivos que são dignos dessa admiração! Admirar Salazar ao ponto de lhe entregar flores na campa, para depois dizer que não é salazarista, é como admirar Fidel Castro e, em resposta à óbvia questão "Então e  tortura política?", dizer "Mas ele deu educação a toda a gente!". Não convence...

Celebrar e conhecer a História é coisa que não tem mal; é até desejável. Devemos, no entanto, encarar com todo o ceticismo quem estabelece projetos de futuro direta e somente baseado na História; normalmente, esses projetos têm muito pouco de futuro. A Nova Portugalidade, pelo nome, é bastante reveladora; quem a lidera, pelos seus atos, também vai revelando as suas motivações. E por isso não se espantem, nem muito menos se ofendam, aqueles que, dizendo serem apenas transmissores da História Portuguesa, se dedicam à difusão da 'Nova Portugalidade', por serem vistos como saudosistas, ou até como revoltados por não viverem no Portugal da Outra Senhora... E àqueles que, de facto, queiram apenas partilhar factos históricos com os portugueses, aconselha-se que o façam noutra plataforma. A Portugalidade tem uma carga histórica pesada. Os amantes da História sabem-no melhor do que ninguém.

S.G.

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