Holanda 2017: Tudo está bem quando acaba bem.



A primeira ronda da luta pela alma do Ocidente em 2017 foi vencida. Tal como previsto aqui o tão antecipado duelo entre Wilders e Rutte não foi mais que uma "goleada" do atual e futuro primeiro-ministro, que até superou as minhas expetativas. Ficou claro que o rei do populismo continental "ia nu" e nem com o seu extravagante penteado conseguiu imolar os feitos dos seus semelhantes Boris Johnson e Donald Trump.

Começando pelos vencedores da noite, de destacar o centro-direita e a esquerda verde. Mark Rutte será o próximo primeiro-ministro e, apesar de ter perdido 8 deputados, perdeu muito menos do que se antecipava, confirmando com a sua 3ª vitória eleitoral que o VVD tem agora o estatuto de maior partido de direita holandês (que fora outrora da CDA). Os democratas-cristãos ganharam 6 deputados (ficam com 19, o que, considerando as sondagens, até foi um resultado fraco) e farão certamente parte do próximo governo, regressando depois de quatro anos afastados do poder que foi seu entre 2002 e 2010 (como protagonista principal) e de 2010 a 2012 (como parceiro do primeiro governo Rutte). Também os liberais do D66 aumentaram o seu grupo parlamentar, ficando também com 19 deputados e acabando em 4º, assegurando uma posição de peso num governo pela primeira vez nalgum tempo. Os verdes ganharam 10 deputados, abaixo do esperado mas mesmo assim impressionante, igualando os socialistas como o maior partido de esquerda holandês e vencendo até na cidade de Amsterdão. Nota também para o PvdD (partido dos animais) que tem agora 5 deputados e o 50+ (partido dos reformados) que tem 4, provando que os partidos feitos à medida do eleitor estão na moda.

Os grandes derrotados foram a esquerda e os euro-cépticos. O PVV de Wilders até esteve melhor do que eu previa, ganhando 20 deputados ( mais 5 do que em 2012) e ficando em 2º, mas supostamente esta era a eleição que afirmaria o PVV como um grande partido holandês que devia ser respeitado. No final, acabaram por praticamente empatar em 2º com dois partidos pró-europeus, muito longe do primeiro. Bastante insatisfatório. Outro grande derrotado foi o PvdA (trabalhistas), que sofreram, aliás, a maior debacle eleitoral da História da Holanda, perdendo 29 assentos parlamentares e passando de força de peso num governo bi-partidário para provável parceiro menor da próxima coligação. Esta humilhação prova que a esquerda de "terceira via" europeia está a ser abandonada por um eleitorado que se sente traído pelo sua abordagem economicamente liberal e a deixa cair no esquecimento. Fica também provado que Rutte é a "viúva-negra" da política holandesa, passando de novo "entre os pingos da chuva" enquanto os seus parceiros de coligação são destruídos nas urnas. Em 2010 a coligação de Rutte com a CDA e apoio do PVV levou a que estes dois últimos fossem os maiores derrotados das eleições de 2012, responsabilizados pela austeridade do governo que não controlavam; e o mesmo acontece agora com o PvdA. Por mais estranho que possa parecer, tem uma explicação lógica. Rutte é bastante pragmático e quem vota nele já espera maior responsabilidade e liberalismo económico, enquanto que quem vota no PVV, CDA e PvdA não o faz com a intenção de que estes apliquem medidas de austeridade (no caso dos dois primeiros) ou reformas de mercado (no caso dos trabalhistas). O SP (socialistas) também não fez melhor, sendo o único partido fora do governo a perder lugares e votos.

A eleição deixou poucas dúvidas relativamente a quem será o próximo chefe do governo holandês. Resta saber se a coligação se cingirá ao VVD, CDA e D66 , contando estes com apoio circunstancial de outros partidos para avançar legislação (visto que contam com 71 dos 150 deputados), se incluirá o PvdA, recompensando a sua lealdade e sacrifício e focando a coligação na ideologia pró-europeia comum, ou se, por outro lado, será privilegiada a visão de política interna com a inclusão da também democrata-cristã CU (5 deputados). Tudo questões que as negociações das próximas semanas, que serão lideradas por Rutte, irão solucionar.

João Jonet

Comentários