A Nova Era Começa Em França


As eleições francesas estão a mostrar-nos o futuro da política Ocidental: a rivalidade esquerda/direita está a definhar perante os nossos olhos e ser substituída por uma nova ordem, podem chamar-lhe populismo vs establishment, nacionalismo vs liberalismo ou mesmo isolacionismo vs internacionalismo; o que interessa é que as velhas divisões políticas não estão cá para ficar, e enquanto as pessoas e, principalmente, os partidos políticos não se adaptarem a esta realidade, estaremos num estado vegetativo de não-reação, fingindo que tudo está bem, vulneráveis aos ataques dos radicalismos.

A França está se a mostrar um excelente caso de estudo, ideal para comprovar esta teoria. De acordo com as últimas sondagens, os candidatos abertamente liberais Macron, Fillon e o menos conhecido centrista Lassalle reúnem 45% das intenções de voto na primeira-volta. Estes são, com mais ou menos diferenças, defensores da globalização e da ordem mundial estabelecida no pós-Segunda Guerra. Do outro lado do "ringue" temos os nacionalistas/protecionistas, com Le Pen à cabeça, Mélenchon logo atrás, os desconhecidos isolacionistas de direita Dupont-Aignan e Asselineau, e os radicais de esquerda Poutou e Arthaud. Todos juntos chegam a ter 46% das intenções de voto. Os restantes 8/9% pertencem ao candidato do Partido Socialista Benoît Hamon, que propõem uma reforma "Sanderista" do sistema, vagueando entre liberalismo e populismo, numa confusa dança que o condena à irrelevância.

A grande novidade das últimas semanas é a grande subida de Mélenchon, que passou a ter hipóteses de chegar à segunda-volta, ou pelo menos ficar em 3º.

Macron continua a liderar com alguma folga nas sondagens para a segunda-volta, estando seguro nos 60%.

Então, mas se a divisão é entre isolacionistas e internacionalistas, como é que Macron tem uma vantagem tão grande na segunda-volta. A principal explicação que encontro é que esta divisão ainda não foi assimilada pelo grande público e mesmo pelos candidatos. Mélenchon e os seus acólitos comunistas veem o "fascismo" de Le Pen como mais perigoso que o liberalismo de Macron ou mesmo de Fillon. Isto apesar de as propostas da Frente Nacional para a economia e para a política externa estarem bem mais alinhadas com a extrema esquerda. 

No fim do dia, as pessoas ainda não recuperaram das guerras culturais das últimas duas (ou cinco) décadas, e ainda não se conseguiram focar outra vez na economia como principal assunto político. O aborto, a igualdade de casamento, a coadoção, a emancipação da mulher, a maior igualdade racial,  a liberalização do conteúdo explícito e mesmo das drogas leves ainda estão demasiado presentes no imaginário coletivo para andarmos a pensar que política económica será mais acertada. Foi assim com Trump e será assim com Le Pen. A diferença é que os EUA são maioritariamente conservadores e a França maioritariamente liberal.

Macron será eleito porque Le Pen é um risco para as liberdades individuais dos franceses, não porque estes são acérrimos defensores do aprofundamento das relações europeias, de fronteiras abertas ou de liberalismo económico. O grande problema é que assim não perceberemos que solução económica é a preferida do Ocidente e se o liberalismo económico está de facto em crise ou se está apenas a ser arrastado pela "má fama" do liberalismo social. Fica-nos, portanto, difícil fazer a defesa quer do primeiro quer do segundo, não sabendo qual é afinal o problema.

João Jonet

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