Ódio e Preconceito
Depois de analisar Jean-Luc Mélenchon, chega a vez de Marine Le Pen, a candidata que prevejo que acabe a primeira volta em 3º lugar. Esta afirmação pode parecer surpreendente, pois a candidata da FN tem estado sempre entre os 2 primeiros nas sondagens, mas, tendo em conta o histórico eleitoral da Frente Nacional, o precedente das eleições holandesas e a recente aproximação de Fillon, acho que será difícil à extrema-direita bater à porta do Eliseu. Claro que com o ataque de ontem em Paris e a proximidade dos 4 principais candidatos nas sondagens, tudo é possível.
- Perfil: Madame Le Pen diz que é uma outsider política, combatente do sistema e das suas elites corruptas. Isto apesar de ser a filha de um político influente e abastado, criada no luxo de uma grande propriedade nos arredores de Paris. Quanto à corrupção, o facto de estar a ser investigada por desviar indevidamente 300 mil euros do Parlamento Europeu, tendo também já sido condenada por fraude, devido à falsificação de folhetos de campanha de Mélenchon em 2012. Tal como Donald Trump, é uma genuína tradicionalista, contando já com dois divórcios. Le Pen já foi vereadora, conselheira regional e é atualmente euro-deputada pela região de Nord-Pas-de-Calais (cuja maior cidade é Lille), onde é altamente influente. Também já representou a zona da Île-de-France (Paris e arredores). Apesar de nunca ter sido eleita para a Assembleia Nacional e de apenas ter ganho uma eleição na vida, le Pen é creditada como sendo uma política hábil que afastou os fantasmas de anti-semitismo e neo-nazismo da FN e a tornou num partido em que é socialmente aceitável votar, focada na sua mensagem económica e de política externa.
- Posições: Le Pen é uma protecionista anti-austeridade, que propõe uma aumento do Estado Social francês e tarifas mais altas para proteger a economia francesa da competição internacional. As suas propostas autárcicas (com vista à total independência económica de França) assemelham-se à ideologia económica nacionalista dos ditadores dos anos 30 (Hitler, Mussolini ou Salazar). Defende o controlo do Estado sobre a maioria da economia para evitar especulação, incluindo o setor energético e os transportes. Este protecionismo leva às suas duas outras ideias base - o eurocetcismo e as mais severas leis de emigração. Propõe um referendo de saída da UE, que diz ser um veículo da globalização neo-liberal que destrói a essência da República e os seus valores base. Sinto que podia ter copiado isto tudo do artigo sobre Mélenchon... Fica o leitor a saber que não fui preguiçoso. Quanto à imigração, a FN afirma que a comunidade islâmica corrompe a França e é a principal razão para a sua falta de segurança e constantes ataques terroristas. Quer impedir a regularização de imigrantes ilegais e fechar a imigração oriunda de países islâmicos. Outras propostas incluem a saída da NATO, do FMI, da OMC e do Banco Mundial. É também defensora de uma aproximação a Putin e do fim das intervenções militares francesas que visam mudar regimes ou proteger populações estrangeiras como no Afeganistão.
- Pontos positivos: Bem...Marine Le Pen vai constantemente contra tudo o que eu acredito: é uma xenófoba, nacionalista, demagoga anti-liberal. Encontrar pontos positivos na agenda de Le Pen, que é autoritária não só na vertente económica (como Mélenchon), mas também na vertente social, à boa maneira de velha direita que definha por esse Ocidente fora, é difícil. Não sei o que elogiar... se calhar vou dizer que ao menos não é anti-semita. Já não é mau.
- Pontos negativos: Se anteriormente me foi difícil encontrar algo de bom, é porque este parágrafo promete. A sua agenda visa criar divisões, extrapolar preconceitos e explorar medos de pessoas muitas vezes mal informadas. Le Pen faz parte da nova classe de abutres da política mundial, indivíduos desprezíveis que se aproveitam de pessoas que não estão a conseguir adaptar-se a um Mundo mais globalizado, meritocrático, inclusivo e mecanizado e aproveita para incentivar racismo, conceções totalmente erradas sobre o funcionamento da economia global e também das instituições democráticas. Foi por aqui que as democracias liberais morreram no século passado, espera-se que não se repita. Quanto a críticas mais detalhadas, dirijo-o para o artigo de Mélenchon, porque isto é tudo farinha do mesmo saco.
João Jonet

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