Todos Contra Le Pen

- O apoio do PS parece genuíno e consensual: certamente que os socialistas gostariam de ter tido Macron como nomeado para reerguer o partido dos escombros da Administração Hollande. Benoît Hamon, Jean-Marc Ayrault, Hollande e outros "pesos-pesados" do centro-esquerda apressaram-se a reiterar o seu apoio a Macron entre Domingo e Segunda-feira. Manuel Valls, ex-Primeiro-Ministro da ala direita do partido, já o tinha feito bem antes; afinal, Hamon era muito de esquerda para a sua camioneta e foi ele o responsável pela inclusão do agora favorito à Presidência no executivo socialista. Com estes apoios, mais de 2 milhões de eleitores (71% dos votantes socialistas) foram persuadidos a apoiar o movimento "En Marche!", segundo as sondagens.
- Mélenchon recusa-se a dizer se apoia ou não Macron, mas fez uma sondagem na página da sua campanha a perguntar aos seus apoiantes como iam votar dia 7 de Maio, excluindo a opção de votar em Le Pen nas respostas possíveis. As sondagens dizem que cerca de 50% dos seus apoiantes votarão em Macron mesmo sem o "endorsement" do seu líder. No mínimo, estarão garantidos mais 3,5 milhões de votos, dividindo-se o resto entre Le Pen (17%) e abstenções (33%).
- Falta ainda Dupont-Aignan, o candidato que se situa politicamente entre Fillon e Le Pen e que, com uns surpreendentes quase 5% dos votos, levou a que o candidato dos Republicanos não chegasse à segunda volta. Este candidato é assumidamente eurocético, mas não declarou apoio à candidata da FN. Os seus apoiantes estão divididos segundo as sondagens, com 41% a apoiar Macron e 38% Le Pen. Numa altura em que procura fortalecer o seu movimento "Debout la France" para as legislativas, antagonizar uma destas alas poderá ser fatal. Por agora, o seu silêncio ainda dá para Macron contar com mais 700 mil eleitores.
- Por fim, e talvez mais importante do que tudo o resto, estão os Republicanos. É sabido que o partido tem duas alas dominantes: o centro, comandado por Alain Juppé (que também já declarou apoio a Macron), e a direita, comandada nos bastidores por Sarkozy (isto é muito mais complicado que este binómio, mas não há tempo nem paciência para estar a explicar as pequenas diferenças entre apoiantes de Raffarin e Sarkozy ou Juppé e Bruno Le Maire). Fillon, que se situa no meio dos dois, declarou o seu apoio a Macron quase imediatamente a seguir a serem conhecidos os resultados, mas disse que não lideraria o partido nas legislativas, deixando um perigoso vazio. Sarkozy — que com a sua influência dissimulada ganhou a alcunha de "Don Sarko" — ainda não declarou o seu apoio a Macron, mas está preparado para fazê-lo, garantindo-lhe o Eliseu. O ex-Presidente tem puxado os Republicanos para a direita de maneira a absorver o eleitorado da Frente Nacional e agora quer conquistar mais poder e influência pondo o futuro Presidente em xeque. Por isso, pôs um preço no seu apoio: um Primeiro-Ministro de direita. A ideia de Macron era eleger o máximo de deputados do seu movimento independente em Junho, impulsionado pela sua surpreendente vitória, e, encontrando-se com o mais que provável cenário de não ter maioria, reunir centristas dos dois grandes partidos e deputados dos dois partidos de centro já existentes (MoDem, tradicional força centrista e UDI, grupo de moderados Republicanos que se afastou de um partido cada vez mais de direita) para formar uma maioria parlamentar estável comandada por um Primeiro-Ministro também ele centrista, como François Bayrou. O plano de Sarkozy é bem diferente e pode pôr esta Administração em perigo antes de começar. Em troca do total apoio dos Republicanos na segunda volta, e considerando que a direita conseguirá uma maioria nas legislativas (o que é bastante provável), Sarkozy pede a Macron que nomeie o seu protegido François Baroin (irónico como os nomes são parecidos) para comandar um grupo parlamentar mais homogéneo que coabite com o Presidente e que faça cumprir a agenda de Don Sarko.
A questão é, portanto, se Macron trocará os seus princípios por segurança eleitoral. O apoio Republicano não será essencial para ganhar, mas sim para garantir uma vitória confortável que dê legitimidade, suportada por uma verdadeira e completa "Barreira Republicana". Os abutres do sistema já rondam esta candidatura independente; espera-se que resista.
P.S.: Depois de este artigo ser escrito Sarkozy declarou apoio a Macron, mas as dúvidas sobre o real apoio que os Republicanos lhe vão dar foram reforçadas pelas declarações do candidato centrista a afirmar que a "barreira republicana se desmoronou" numa visita a uma fábrica em Amiens.
P.S.: Depois de este artigo ser escrito Sarkozy declarou apoio a Macron, mas as dúvidas sobre o real apoio que os Republicanos lhe vão dar foram reforçadas pelas declarações do candidato centrista a afirmar que a "barreira republicana se desmoronou" numa visita a uma fábrica em Amiens.
João Jonet
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