Uma Pedra no Sapato


Quem diz que a Península Ibérica é habitada por dois povos é normalmente corrigido pelos sabedores de maior ordem que relembram que Andorra existe; distração indesculpável dos que acusam ditrações - lá no Sul da península, há uma pedrita chamada Gibraltar que não é espanhola, nem portuguesa, nem andorrana, e que tem dado que falar esta semana.

Um pouco de História
Controlado pelos Mouros por mais de sete séculos, o Calhau do lado Europeu do estreito foi (re-) conquistado pelos Castelhanos em 1462, mas, em 1713, por meio do tratado de Utrecht, Espanha cede Gibraltar à Grã-Bretanha e, desde então, Gibraltar tem pertencido aos Bretões. Espanha argumenta que Gibraltar lhe foi retirada no contexto de uma disputa pelo trono espanhol, mas o que é facto é que a cedência de Gibraltar à Grã-Bretanha está prevista num tratado que contou com as assinaturas dos representantes das maiores potências europeias à altura.


Mas porquê Gibraltar? A terra é pequena, e tem uma população permanente de pouco mais de 32 mil pessoas. Mas... o Reino Unido tem lá uma base militar e a sua localização é estratégica, em termos comerciais e de transporte de petróleo e armas. Ou seja, em duas palavras, dá jeito.

E o que dizem os Gibraltarenhos?
É simples - querem continuar a ser Britânicos. Só Britânicos! Num referendo em 2002, à pergunta 'Aprova o princípio de que o Reino Unido e Espanha devem partilhar a soberania de Gibraltar?", os Gibralterenhos responderam com um demolidor 'Não' (99% 'Não' para 1%'Sim').


Mas, então, o que se passa com Gibraltar? BREXIT é a resposta a qualquer pergunta sobre polémicas recentes!
Parece que o plano (não definitivo) da União Europeia em relação ao Brexit indica que só com o consentimento de Espanha é que os acordos relativos à relação pós-Brexit entre a UE e o Reino Unido se aplicarão também a Gibraltar.  Isto significa, basicamente, que o Reino Unido terá que estabelecer acordos bilaterais com Espanha, sempre que os assuntos digam respeito também a Gibraltar. Sair da União Europeia está cada vez mais fácil...

Mas o 'engraçado' de toda esta situação é que, de repente, surge uma onda pseudo-bélica dos lados do Reino Unido. Quando questionado até que ponto estaria preparado para defender os interesses de Gibraltar, o ministro da defesa inglês respondeu que Gibraltar seria protegida 'all the way', que poderia ser traduzido para qualquer coisa como "custe o que custar". Ainda mais claro foi Michael Howard, ex-líder conservador, ao dizer que, há 35 anos, 'uma outra mulher Primeira Ministra' enviou forças até ao outro lado do mundo para 'proteger um outro pequeno grupo de britânicos contra um outro país de língua espanhola', referindo-se à Guerra das Ilhas Falkland, travada em 1982 entre o Reino Unido e a Argentina, que resultou numa retumbante vitória do Reino Unido, de tal forma que permitiu a reeleição da até então impopular PM Margaret Thatcher. São apelos curiosos, mas valha-nos que Michael Howard não seja hoje mais do que um mero membro da Casa dos Lordes...

Os espanhóis vieram dizer que estavam surpreendidos pelo tom vindo do Reino Unido. Até certo ponto, têm razão. Mas esta frase, quando vinda dos espanhóis, soa a hipócrita. Ter a mãozinha em Gibraltar é algo que eles procuram há muito, e, vendo-se agora com essa oportunidade, estão mais que radiantes, tendo em conta que se sabe (ou, pelo menos, desconfia) que este direito de veto foi resultante de uma eficaz estratégia de lobbying por parte dos representantes espanhóis junto da União Europeia. E, por isso, quando os nuestros hermanos se mostram surpreendidos, ou é porque não sabem que o assunto é sensível, ou então é porque desconhecem as suas próprias ambições territoriais, que aqui os portugueses também sabem quais são...

Felizmente, Theresa May já veio acalmar as águas, tendo-se rido em resposta a uma jornalista que lhe perguntava se descartava a possibilidade de guerra, afirmando que está focada em dialogar com a União Europeia e em obter resultados positivos das negociações que aí vêm. Michael Howard terá um desapontamento, se estiver à espera que se trave uma guerra por Gibraltar. Pelo menos, é o que se deduz das palavras de Theresa May...

May pode ter matado a polémica, mas ainda há esperança de que o bate-boca se prolongue por mais uns dias; e aí, enquanto Espanha estiver distraída com Gibraltar, pode ser que Portugal vá tratar de ir buscar Olivença. Não deixava de ser irónico...

S.G.

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