O Diabo Vermelho

Em contagem decrescente para as eleições de Domingo, vou apresentar os 4 candidatos com hipóteses de chegar à segunda volta, as suas propostas e o seu histórico, com uma apreciação crítica da sua candidatura e das suas capacidades. Vou começar por baixo, com o candidato que prevejo que vá ficar em 4º: Jean-Luc Mélenchon.
- Perfil: Comunista tornado socialista tornado radical de esquerda, Mélenchon é euro-deputado pelo Partido de Esquerda (Parti de Gauche), força que criou para se separar do PS de Hollande e da sua ex-mulher Ségolène Royal, que considerou demasiado centrista e capitalista. Este divórcio veio 6 anos depois de ter servido no Governo de Lionel Jospin como ministro da Educação Vocacional e enquanto ainda era Senador pelos subúrbios de Paris. Conhecido pelos seus dotes de oratória e casaco preto, é, desde cedo, defensor da união da esquerda francesa contra a direita capitalista, uma esquerda que não tenha vergonha do seu pendor revolucionário (é, afinal, admirador de Robespierre) e das suas origens marxistas. Critica constantemente o compromisso partidário que diz corromper as ideologias socializantes e também é um nacionalista inveterado, atacando a UE como veículo da globalização capitalista.
- Posições: Como bom comunista, Mélenchon propõe uma total reavaliação da política externa, orientando-a para a solidariedade e não para os pactos militares e acordos económicos. Por isso, propõe uma total renegociação dos tratados europeus, de forma a tornar a instituição mais democrática e transparente ao mesmo tempo que erradica a sua matriz liberal de mercado. Defende também a saída francesa da NATO. É, também, um ambientalista e defensor de maior intervenção do Estado para preservar o património natural e investir em energias verdes. Outras propostas incluem uma Sexta República mais democrática e menos presidencialista em França, comércio mais justo e que defenda o cidadão francês, subida brutal de impostos aos mais ricos para "redistribuir a riqueza, aumento do Estado Social, e melhoramento dos direitos laborais. É igualmente apoiante de maior abertura das fronteiras e da legalização da canábis.
- Pontos positivos: Obviamente que a União Europeia tem de ser reformada, para se tornar mais transparente e incluir mais o cidadão comum, apesar da resposta ser voltar a focá-la mais na economia e menos na política. A solução que oferece mais possibilidades de prosperidade aos povos europeus é mesmo o Mercado Livre, com a sua destruição de barreiras a ser sinónimo de paz e riqueza nos últimos 60 anos e a sua tecnocracia ditatorial a ser sinónimo de desconfiança popular e consequente desprezo pelas elites qualificadas. A maior abertura de fronteiras é também uma boa medida, pois facilita a sustentabilidade demográfica e económica de uma Europa envelhecida, e traz-nos pessoas ambiciosas e trabalhadoras para dinamizar as posições menos desejadas do mercado de trabalho. Naturalmente que se tem de ter em conta a segurança de quem já cá está, mas uma série de estudos já provaram a menor propensão para a criminalidade das comunidades imigrantes e que o real problema é a alienação xenófoba destas mesmas comunidades. Mal nenhum na legalização da canábis, pois nada prova que seja mais nociva que o tabaco ou perigosa que o alcoól e, para além disso, os indivíduos é que devem ser responsáveis pelo que põem no corpo, não o Estado. Não há também mal nenhum em ser conservacionista e querer proteger a natureza, mas tem que haver um balanço entre as necessidades da economia, as liberdades individuais e a defesa do ambiente. O Estado deve preocupar-se mais em regular e consciencializar do que em forçar os contribuintes a financiar iniciativas verdes que muitas vezes vão dar numa mão cheia de nada.
- Pontos negativos: As posições de política externa são pouco inteligentes, pois França é a 3ª maior potência nuclear do Planeta e tem a responsabilidade de se envolver na sua segurança e na defesa dos valores Ocidentais, que têm também origem nos salões da Paris do séc. XVIII. Quanto à Sexta Repúblia, parece anacrónico, numa altura em que o Presidencialismo é visto como a maneira mais eficaz e estável de gerir um país e em que os executivos assumem um papel cada vez mais central, estar a colocar todo o poder num Parlamento que poderá tornar a administração diária num caos. O protecionismo também me parece o caminho errado, pois ao "defender o trabalhador francês" com tarifas está a obrigá-lo a gastar mais por produtos de menor qualidade. O melhoramento das leis laborais e do Estado Social numa altura em que a pouca flexibilidade do mercado de trabalho francês é vista como a principal razão para o seu fraco crescimento e em que a dívida pública cresce para valores assustadores parece-me muito mal visto. No entanto, a "redistribuição" é para mim a "pièce de résistance" das propostas idiotas de Mélenchon: com a ideia de taxar pessoas que ganhem mais de 360 mil euros ao ano a 100% a ser a mais rídicula. A ideia que os mais ricos não têm direito ao seu dinheiro, ganho honestamente, e que devem ser obrigados pelo Estado a ser solidários com os seus concidadãos menos favorecidos em vez de o fazerem voluntariamente, não seria só ruinosa para a economia francesa como seria altamente injusta e pouco democrática.
João Jonet
Comentários
Enviar um comentário