Eleições à vista!
Para surpresa de todos, Theresa May anunciou hoje que marcará eleições legislativas para o dia 8 de junho deste ano, à procura de um mandato mais alargado no contexto da saída do Reino Unido da União Europeia. Embora seja ainda necessária uma votação no Parlamento para aprovação da data, é quase certo que a proposta vá ser aprovada.
O anúncio deixou todos em choque, porque May passou os últimos meses a dizer que o país precisava de estabilidade para as negociações com a União Europeia, rejeitando, até, a possibilidade de um referendo na Escócia com o argumento de que o país deve evitar instabilidade neste período. Esta contradição poderá custar-lhe votos, mas, de facto, a oportunidade parece boa demais para ser desperdiçada. Ora vejamos:

Este gráfico apresenta a média dos resultados das sondagens para as Eleições Legislativas do Reino Unido em cada mês. O que podemos ver é que, desde o referendo ao Brexit, em junho de 2016, o partido Conservador tem alargado a sua distância em relação ao principal partido da oposição, o Labour - numa sondagem, a diferença entre os dois partidos atinge os 23%. Quando dizemos que Jeremy Corbyn (líder do Partido Trabalhista) não tem hipóteses de ganhar uma eleição, o risco de nos enganarmos é mesmo muito baixo... E é também por aí que a jogada de May é bastante inteligente:
Primeiro, Theresa May 'aciona' o Artigo 50 do Tratado de Lisboa (oficialmente iniciando o processo de abandono da União Europeia), e só depois marca as eleições. Desta forma, impede que estas eleições sejam uma espécie de segundo referendo ao Brexit, possivelmente evitando que alguns votos anti-Brexit se dispersem por outros partidos, visto que, uma vez acionado, o Artigo 50 é irreversível; mas, mais importante, marca as eleições para daqui a 6 semanas, o que quer dizer que o Labour não terá tempo de despejar Corbyn e arranjar um substituto credível que tenha hipóteses de ganhar as eleições. A única hipótese seria mesmo Corbyn desistir da liderança, mas, a esta distância das eleições, o líder do Partido Trabalhista está quase de certeza preso ao cargo até ao dia 8 de junho.
Mais ainda, Theresa May poderá aproveitar estas eleições para diminuir o número de deputados do partido nacionalista Escocês, SNP, na câmara dos Comuns. Com a crescente popularidade da líder conservadora escocesa, Ruth Davidson, essa é uma possibilidade a explorar, mas o tiro pode sair pela culatra: a pressão exercida pela Primeira Ministra Escocesa, líder do SNP, Nicola Sturgeon, para que se realize um novo referendo à independência escocesa pode dar ainda mais força ao seu partido e, assim, reforçar a presença dos nacionalistas em Westminster.
Na economia: depois do anúncio de May, a apreciação da Libra levou-a a atingir o valor mais alto desde há 10 semanas. Embora estas eleições possam trazer alguma instabilidade, as sondagens parecem oferecer bastantes certezas de que os Conservadores vencerão as eleições; mas, aos mercados, falta ainda saber se os conservadores terão nestas eleições uma postura mais 'soft-Brexit', algo que as instituições financeiras e a maior parte das empresas claramente preferem. No entanto, essa parece uma hipótese menos provável, dadas as posições que Theresa May e a sua equipa têm tido face às negociações com a União Europeia. No entanto, as eleições são um 'game changer', e podem ser o pretexto para alterar a estratégia do Partido Conservador. A indefinição não nos permite ainda perceber qual será a postura dos Conservadores para estas eleições, mas parece-me que mudar de narrativa face ao Brexit pode ser encarado como um risco demasiado grande, e pode ser que o Brexit seja mesmo hard em vez de soft.
May aproveitou uma deixa que não se podia desperdiçar: um líder da oposição pelas ruas da amargura, sondagens mais do que favoráveis a uma maioria absoluta, um partido centrista (os Liberal Democrats) que continua com a popularidade em baixa (embora não tanto quanto há dois anos, nas eleições legislativas de 2015), uma líder do Partido Conservador Escocês que poderá levar a que a possibilidade de um segundo referendo à independência escocesa morra antes que este se realize, um partido de direita populista (UKIP) que depois do referendo ao Brexit se encontra sem causa e sem liderança, e um país oficialmente em processo de abandono da União Europeia, processo esse que só Theresa May parece ser capaz de liderar. May terá apenas que aguentar o barco por mais 6 semanas, e poderá sair das eleições com uma vitória esmagadora e com algo que muitos a acusavam de não ter - um mandato para governar. Resta saber se é capaz.
S.G.
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