Trump e a Mãe Rússia

Paira um fantasma sobre a Administração Trump, um fantasma russo que persegue o Presidente desde os primeiros dias da sua campanha. No espaço de quase dois anos, uma série de declarações, conexões e revelações criaram as condições perfeitas para o aparecimento de uma teoria da conspiração tão plausível que está a ser investigada pelo Congresso. Passo a esclarecer as certezas, as dúvidas e os detalhes verdadeiramente estranhos desta história que tresanda a "Watergate" e que poderá ditar o fim de uma Administração que já se está a deslegitimar desde o primeiro dia devido ao já confirmado envolvimento do estado russo nas eleições.
Começando por baixo temos George Papadopoulos, um conselheiro de política externa que Trump considerou importante o suficiente para mencionar e elogiar numa entrevista ao Washington Post em Março do ano passado. Sergei Millian, um bielorruso-americano que é tido como o homem por trás da divulgação de supostos documentos comprometedores que o governo Russo teria para chantagear Trump (incluindo uma rocambolesca história envolvendo prostitutas, um "golden shower" e o atual Presidente dos EUA num Ritz de Moscovo), disse a várias pessoas que mantinha contacto com Papadopoulos, este que se assumiu prontamente como crítico das sanções americanas relacionadas com a anexação da Crimeia.
Michael Cohen, advogado de longa data da Trump Organization, reuniu-se em Janeiro deste ano com o russo Felix Sater (parceiro de negócios de Trump na Rússia que tentou em 2005 e 2015 iniciar nesse país a construção de uma Trump Tower; o Presidente diz que não se lembra dele) e o ucraniano Andrii V. Artemenko em Nova Iorque, para negociar um acordo de paz para a Ucrânia que favorecesse a Rússia, acordo esse que chegaria à secretária do National Security Adviser Michael Flynn dias antes deste se demitir por se ter encontrado com o embaixador russo Sergey Kislyak para discutir sanções antes da tomada de posse e consequentemente mentir a Mike Pence sobre esses encontros.
Suspeito? Não!... E ainda só estamos nas franjas.
Rick Gates, líder da ONG de apoio a Trump, America First, ausentou-se da organização em Março depois de o Washington Post ter revelado uma série de negócios que teria feito em parceria com o então Campaign Manager Paul Manafort, envolvendo oligarcas russos e o ex-Presidente ucraniano pró-russo Viktor Yanukovych. Ainda durante o reinado de Manafort, é contratado Michael Caputo, conselheiro da campanha para a primária de Nova Iorque, que se notabilizou por ter sido contratado por Vladimir Putin, no início do século para melhorar a sua perceção pública nos EUA.
J.D. Gordon, assessor da campanha, é tido como o responsável pela exclusão de passagens críticas da política externa russa da plataforma, tendo-se encontrado (juntamente com o conselheiro de política externa Carter Page) com o embaixador russo Sergey Kislyak na Convenção em Cleveland, em Julho de 2016. Imediatamente a seguir à Convenção, são publicados e-mails de Hillary Clinton pela WikiLeaks, não sem que antes o confidente de Trump, Roger Stone (que afirmou estar em contacto com membros da organização liderada por Assange), ter avisado que isso iria acontecer. Em Agosto, avisou que o próximo a ser comprometido seria o Campaign Manager democrata John Podesta, o que se confirmou. Admitiu também já ter entrado em contacto com o hacker russo Guccifer 2.0 via Twitter.
Carter Page, que tinha sido consultor da empresa estatal de gás natural russa Gazprom, e que admitiu à Bloomberg ter ações nesta mesma empresa e estar a ser prejudicado pelas sanções do Ocidente, dá um discurso em Julho em Moscovo, criticando as sanções e a "hipócrita" política externa democratizadora dos EUA. Sai da campanha em Setembro depois de ser revelado (apesar de Page negar) que se encontrará com o chefe do gigante petrolífero russo Rosneft (também uma empresa pública) e outros altos-representantes russos.
Com a escolha da Administração surgem novas suspeitas. Wilbur Ross é escolhido para Secretário do Comércio, ele que, nos anos 90, liderara uma equipa criada por Bill Clinton para melhorar as relações económicas entre EUA e Rússia. Para Secretário de Estado é escolhido Rex Tillerson, ex-CEO da Exxon-Mobil e homem próximo de Putin. Jeff Sessions, o novo Procurador-Geral (Ministro da Justiça), ter-se-á encontrado com o embaixador russo várias vezes, incluindo na Convenção. Quando lhe perguntaram no Senado se tinha tido contacto com oficiais russos, disse que não, e, quando a mentira foi exposta, não se demitiu, mas imiscuiu-se da investigação russa. Na Casa Branca é colocado o cunhado de Trump, Jared Kushner, que em 2015 fundara uma empresa com a ajuda de investidores russos, e que se encontrara com o embaixador russo, juntamente com Flynn. Para melhorar, uma das convidadas da sua mulher Ivanka na inauguração do pai foi a mulher do oligarca e aliado de Putin, Roman Abramovich. Tanto Kushner como Manafort vão ser interrogados no Congresso. Também para ter um posto na Casa branca é escolhido o já várias vezes referido General Michael Flynn, ele que, para além das tropelias já referidas, foi pago para dar vários discursos pró-Rússia nos EUA e em Moscovo, tendo conhecido Putin na capital russa, tendo até estado sentado na mesma mesa do Presidente. Flynn confirmou ontem que se apresentaria ao Congresso se lhe fosse garantida imunidade.
Chegamos finalmente a Donald Trump, que desde os anos 80 que tem negócios na Rússia. Em 2013, organizou, em Moscovo, um dos seus concursos "Miss Universo", altura em que confirmou à MSNBC que tinha estabelecido relações com Putin. Em 2014, confirmou à porta fechada que em Moscovo teria falado direta e indiretamente com o Presidente russo e durante a sua campanha elogiou-o amiúde, chegando até a exigir o fim das sanções. Em Julho de 2016 diz que não conhece Putin, que nunca falou com ele e que tem "zero" investimentos na Rússia. A Trump Organization é deixada a Donald Trump Jr. quando o pai se torna Presidente. O filho confirmara em 2008 que a Rússia era uma das principais fontes de rendimento da empresa, tendo visitado o país 6 vezes. Numa delas foi guiado em Moscovo por Sater, o tal parceiro de negócios de que o pai não se lembra.
Para ajudar à festa, o líder da comissão que está a fazer o inquérito a este caso, o luso-descendente Devin Nunes, terá visitado a Casa Branca várias vezes para discutir os primeiros resultados da investigação antes de os tornar públicos.
O líder democrata na comissão que está a fazer o inquérito, Adam Schiff, "liga os pontos" numa chocante intervenção (vale principalmente a pena a partir do minuto 6).
A possibilidade de uma nação debilitada económica e militarmente, que vive numa realidade alternativa em que é uma grande potência, estar de facto a controlar a Administração da maior força mundial é extremamente assustadora. O facto de o Presidente da democracia mais antiga do planeta idolatrar um líder autoritário é altamente preocupante. E o facto de termos tantos indícios só torna toda a questão mais confusa. Nas palavras do Senador Mark Warner: "Há muito fumo, resta-nos perceber se há de facto fogo."
João Jonet
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