O Irredutível Gaullista



Fosse este artigo escrito em Outubro e estaríamos a falar de um candidato irrelevante às primárias do centro-direita. Se tivesse sido escrito em Novembro, estaríamos aqui a falar do futuro Presidente de França. Em Fevereiro, já seria sobre o facto de ser impossível a François Fillon chegar à segunda volta, mas estamos em Abril e está-me a parecer que o candidato Republicano será o segundo mais votado amanhã. Esta campanha tem sido uma autêntica montanha-russa para Fillon, que passou do anonimato à glória tão rápido como daí foi à desgraça. Assombrado pelo facto de ter pago quase 1 milhão de euros à sua mulher Penelope e dois filhos para alegadamente fazerem muito pouco trabalho no seu gabinete parlamentar, o homem que idolatra Margaret Thatcher parece-me pronto para ser o grande choque desta eleição, deixando para trás Marine Le Pen e Jean-Luc Mélenchon, candidatos com muito mais "hype". Este prognóstico sustenta-se na sua recente aproximação nas sondagens, no apelo que tem a sua experiência, moderação e capacidade de disputar uma eleição representando a direita em comparação com Le Pen, devido a ser o único candidato que poderá conseguir uma maioria parlamentar de apoio e, por fim, no facto de a sua queda nas sondagens não ter beneficiado nenhum candidato em particular, pois a maioria dos seus desencantados apoiantes dizem que se vão abster (com 30% a dizer que não participará no ato eleitoral, podemos ter uma das mais baixas participação da História), podendo estes mesmos ex-apoiantes decidir pôr as propostas à frente da moral e votar em Fillon. Grande parte da sociedade francesa quer um Presidente experiente e que reforme a obsoleta estrutura sócio-económica do país. Por isso é que tanto Fillon como Juppé, os possíveis candidatos republicanos, foram sempre favoritos à Presidência. Os franceses não são italianos, mas também deixam passar muita coisa (Chirac, Mitterrand ou Sarkozy não eram nenhuns santinhos), veremos se deixam passar o "Penelopegate".


  • Perfil: Fillon é provavelmente o político francês mais experiente no ativo, tendo sido por 5 anos Primeiro-Ministro, ministro (7 vezes), senador, deputado (desde 1981, com pausas para ser ministro), Presidente do Conselho Regional de Pays de la Loire, Presidente do Conselho Geral de Sarthe, Presidente da Câmara de Sablé-sur-Sarthe e vereador pela mesma autarquia. Uma carreira política atarefada e ininterrupta que dura há mais de 35 anos. Apaixonado por desportos motorizados (não fosse ele dos arredores de Le Mans) e pela cultura britânica (a mulher é galesa) é um conhecido anglófilo. Experiente, inteligente e com boa oratória é conhecido por ser algo fechado e frio, não permitindo que a sua vida pública se misture com a vida pessoal. Esta campanha marca o pico da sua carreira política dentro do centro-direita francês, tendo já sido líder parlamentar e perdido uma eleição muito feia para a liderança do partido com Jean-François Copé, com acusações mútuas de batota e muita confusão.                                     
  • Posições: Como já referi, François Fillon tem uma grande devoção por Margaret Thatcher, propondo, portanto, um grande emagrecimento e otimização do Estado francês, flexibilização e simplificação da estrutura tributária e das leis laborais e um aumento da idade da reforma para 65 anos. Quanto à política externa, Fillon é um pragmático, apoiando a UE  e a NATO ao mesmo tempo que ressalva a soberania francesa no que toca a fronteiras e intervenções militares, defendendo um diálogo aberto com Vladimir Putin e Bashar al-Assad, pois a França deve combater os seus verdadeiros inimigos — o islamismo totalitário e o terrorismo — e não andar a preocupar-se com o facto de países estrangeiros serem ou não democráticos. Por fim, é de ressalvar que Fillon é um conservador social, que se opõe ao aborto, casamento homossexual e co-adoção, apesar de dizer que só tentará impedir que a última seja lei em França.                     
  • Pontos positivos: França precisa objetivamente de se tornar mais competitiva em termos económicos e a sua dívida está a chegar a níveis assustadores (quase 97% do PIB). Por isso, o fim das 35 horas semanais, o aumento da idade da reforma, os 100 mil milhões de euros de cortes ao Orçamento de Estado, o fim de um excessivo imposto sobre a riqueza e o despedimento de 500 mil funcionários públicos são mesmo a terapia de choque que é necessária neste momento. Os sindicatos franceses têm infernizado a vida de governos sucessivos, e está na altura de alguém lhes pagar na mesma moeda. O problema prende-se com a legitimidade de Fillon para pedir estes sacrifícios aos franceses, dados os seus escândalos. O seu apoio à NATO e à UE também são bem-vindos na conjuntura atual, apesar de não serem particularmente entusiásticos.                                                                                                           
  • Pontos negativos: A proposta de aproximação aos tiranos que gasificam vilas na Síria parece-me pouco inteligente. Putin já provou várias vezes ser o maior inimigo ideológico do Ocidente e o seu comportamento só pode ser condenado. Já Assad tem de ser julgado por crimes de guerra, não eternizado no poder. Os comentários de Fillon em relação ao terrorismo também roçam por vezes a islamofobia, mas nada de muito preocupante. Por fim, mas não menos importante, o seu conservadorismo católico herdado de Charles de Gaulle chega algumas décadas atrasado. Esta incoerência da velha direita, muito liberal economicamente, mas altamente autoritária socialmente é frustrante. O que é que o Estado tem a ver com as relações pessoais entre adultos? E com as decisões que as pessoas tomam relativamente ao seu corpo? É uma linha de pensamento que me perturba e confunde. Acho que chega destes faits divers, chega de ter na vida e nas escolhas dos outros o centro da discussão política. Afinal, como dizia James Carville (diretor de campanha de Bill Clinton) a propósito do que interessava discutir nas eleições de 1992: "It's the economy, stupid".

João Jonet

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