A Revolução Continua

Ontem, na primeira-volta das eleições legislativas francesas, a revolução iniciada por Macron continuou a caminhar para a transformação política do país, com os deputados do partido "A República Em Marcha!"  a serem favoritos a ganhar em pelo menos 410 das 577 circunscrições parlamentares. Esta super-maioria, apesar de assombrada por uma abstenção de 51% (que poderá diminuir na segunda-volta do próximo domingo), dará ao Presidente margem mais do que suficiente para reformar o mercado laboral ainda este Verão, e, ao longo dos 5 anos da legislatura, trazer à França as reformas de que precisa desesperadamente para entrar no séc. XXI.

  Este mandato de proporções assombrosas tem como contraponto a destruição da paisagem política vigente em França desde 1958. Os grandes partidos foram humilhados, e mesmo Mélenchon e Le Pen viram as suas bases de apoio reduzir consideravelmente.

Começando pelos radicais, Mélenchon e aliados desceram dos 19,6% que o líder da extrema esquerda conseguira nas presidenciais, para 14%, se juntarmos o movimento do ex-Ministro da Educação, a "França Insubmissa"  (ou "Inconformada" se for menos à letra), ao Partido Comunista que apoiou a sua candidatura em Abril. O resultado é fraco e tira vigor a este movimento, que, no máximo, chegará aos 20 deputados (suficientes para formar um grupo parlamentar), sendo que o próprio Mélenchon está em risco de não ser eleito. Já Le Pen está em melhor posição para se tornar deputada, ganhando assim pela primeira vez uma voz em Paris, mas a Frente Nacional perdeu 8% do seu eleitorado em relação às presidenciais e teve menos 4-5% do que as sondagens previam, um resultado que dificilmente chegrá para os 15 deputados necessários para formar um grupo parlamentar próprio e que deixará a liderança de Le Pen algo ameaçada. Se a herdeira do partido de extrema-direita não ganhar o seu assento na segunda-volta, contra um candidato do REM, a sua saída será inevitável.

Já os Republicanos, que escolheram afastar-se das propostas mais liberais de Fillon e propor uma agenda de direita mais normal para França (patrocinada por Sarkozy), ficaram numa posição desconfortável, com a perspetiva de serem o maior grupo parlamentar de oposição, a não compensar o facto de estarem prontos a perder quase 100 lugares, e de enfrentarem uma revolta dos seus membros mais centristas se continuarem na senda conservadora em que o fantoche de Don Sarko, François Baroin os colocou. Os 125 deputados que formam o sue grupo parlamentar podem passar para metade se Macron conseguir aliar-se aos mais moderados, coisa que certamente tentará, para facilitar a passagem das suas reformas económicas, não muito populares com a ala esquerda do seu partido.

Chega a altura de abordar o grande derrotado da noite. O PS vai passar de 280 deputados para, no máximo, 35. Benoît Hamon e o líder parlamentar do partido Jean-Christophe Cambadélis, nem passaram à segunda-volta e os 9,5% que o partido e os seus aliados conseguiram ficarão na História como o seu pior resultado de sempre. Para ter uma ideia, em 1993, quando o Primeiro-Ministro socialista Pierre Bérégovoy passou de 260 para 53 deputados, suicidou-se 3 meses depois. Alguém que vá tirar armas, comprimidos e cordas da casa dos 250 deputados socialistas que vão ficar sem emprego. Esta eleição marca provavelmente a morte do PS, uma força destrutiva na política francesa, que devido à sua natureza compromissória e submissa em relação ao movimento sindical, deixou a economia francesa profundamente atrasada, dependente de uma indústria agrícola que é um cancro a nível europeu, ao ser protegida com medidas protecionistas que descridibilizam a UE e as suas credenciais liberais.

Fica confirmado que Édouard Philippe, o PM  dissidente do centro-direita, e o seu heterogêneo gabinete continuaram no poder, esperando-se grandes e transformadoras reformas que revitalizem o projeto europeu, a economia francesa e o liberalismo a nível continental.

João Jonet

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