Humilhação Pública

Theresa May jogou com o futuro do Reino Unido, procurando ganhos para sedimentar a sua posição de poder e, tal como o seu antecessor, saiu do casino de mãos a abanar. A eleição em que os Conservadores iam ganhar 100 lugares na Câmara dos Comuns, em que os britânicos iam dar a Theresa May a confiança e a força necessária para que a sua "strong and stable leadership" pudesse afirmar que "Brexit means Brexit" e por fim "Get on with it, and deliver the best Brexit deal for Britain". O problema é que, com estas 3 vagas citações, acabei de expôr 95% do programa dos Conservadores (para o caso de estar interessado, os restantes 5% consistiam em promessas de re-legalizar a caça à raposa e taxar idosos até à medula). Por mais incrível que pareça, os britânicos parecem ter rejeitado este fantástico e detalhado projeto de futuro, proposto por uma mulher com o carisma de uma couve-rouxa. Apesar de surpreender o nível de apoio que o programa de Jeremy Corbyn teve, tendo em conta que foi desenterrado da vala comum onde qualquer partido sensato de centro-esquerda o teria enterrado a meio dos anos 80, o facto é que era um programa completo, que respondia a todos os assuntos polémicos (menos o Brexit, mas isso acabou por ser bom) e que mostrava entender o sentimento de revolta e o desejo de mudança de uma parcela considerável da população.
É um facto que o programa de Corbyn teria sido desastroso para o Reino Unido, mas os exemplos de Hillary Clinton e Emmanuel Macron já deviam ter provado aos Tories que o liberalismo, se defendido de forma tão entusiástica como o líder Trabalhista defendeu o socialismo reacionário, consegue conquistar países. Quando a resposta dos Conservadores para o recuo ideológico do Labour para os anos 70 é um recuo ideológico para o séc. XIX, sabemos que as Ilhas estão com problemas para se adaptar ao séc. XXI. Não deixa de ser curioso que esta abordagem retrógrada dos dois grandes partidos levou a uma divisão mais ou menos igualitária do voto do UKIP, fator vital para os ganhos Trabalhistas e embaraços Conservadores. É engraçado notar que os eleitores do partido eurocético, talvez enganados pelas mensagens vagas de Corbyn quanto à UE, talvez convencidos de que o Brexit será inevitável, acabaram por voltar para os Trabalhistas e para as suas políticas de apoio ao estado-social, em vez de migrarem para os Conservadores, como se previa. Se calhar, todos os analistas, eu incluído, deviam ter olhado com mais atenção para as características destes eleitores, e para o seu fraquinho pelo populismo, em vez de assumir que estes teriam, por defeito, as orientações ideológicas de Nigel Farage.
Outro protagonista da noite foi Tim Farron, que provou, com as suas dificuldades em ganhar o seu próprio assento no Parlamento, que se uma pedra fosse líder dos Liberais-Democratas, se calhar estes teriam chegado aos 20 MP's. Um partido com excelentes candidatos e a melhor mensagem conseguiu perder 5 dos lugares que controlava, ganhando 8 para compensar. As vitórias devem-se à qualidade e experiência dos candidatos que tentaram recuperar os lugares perdidos há dois anos, não à estratégia deste liderança, demasiado esquerdista e inepta para liderar um partido com esta História. Uma das perdas é particularmente triste, com Nick Clegg (Vice-Primeiro-Ministro de Cameron em coligação) a perder o seu assento de Sheffield Hallam. Um dos últimos grandes líderes liberais, a sua qualidade política e apego à herança ideológica do partido foram admiráveis, e a sua ausência de Westminster, que deve agradar aos amiguinhos sociais-democratas de Farron, é uma perda gigantesca para a política britânica.
Num dia em que ninguém ganhou na Grã-Bretanha (e ainda bem, porque todas as opções eram terríveis), o Partido Nacionalista Escocês foi dos mais prejudicados. Com 21 parlamentares perdidos, a mensagem independentista perdeu muita força, e as esperanças de fazer uma coligação com Corbyn esfumaram-se com o assalto feito por Conservadores, Trabalhistas e Lib-Dems, que voltaram a valores mais condizentes com a sua dimensão, depois da "limpeza" de há dois anos. Os ganhos dos Conservadores Escoceses são particularmente impressionantes (+12) e a sua líder, Ruth Davidson, fica com credenciais para suceder a May.
Já na Irlanda do Norte, os partidos mais moderados associados aos Trabalhistas (SDLP) e Conservadores (UUP) a perderem os seus 5 assentos para os nacionalistas radicais do Sinn Féin (que ficam com 7, apesar de se absterem de comparecer em Westminster) e os unionistas radicais do DUP (que ficam com 10). Estes resultados, normalmente irrelevantes, não o são desta vez. Theresa May já afirmou que vai tentar um acordo com o DUP (que está receptivo a aceitar) para sustentar um Governo minoritário. Isto é muitíssimo perturbador, primeiro porque o DUP, apesar de favorecer um "Soft Brexit", tem tudo para puxar os Conservadores para a direita. O seu radicalismo moral é perturbador, mas justifica-se, dadas as suas perversas origens evangélicas. Para além disso, o seu nacionalismo e protecionismo são exagerados e podem mover o governo para um caminho mais xenófobo no que toca às políticas de imigração. Para além disso, este pacto põe em perigo o frágil equilíbrio conseguido com os acordos da "Good Friday", que finalmente trouxeram paz à Irlanda. Se o governo se associar e favorecer os nacionalistas, poderá destruir anos de progresso. E pensar que Corbyn é que era perigoso por ter apoiado o IRA...
Theresa May está a fazer uma aliança nefasta que pode ter terríveis consequências. A falta de humildade e mesmo sanidade que a PM mostrou ao não se demitir depois de uma derrota de proporções estratosféricas e a avareza que mostrou ao querer agarrar-se ao poder são mais embaraçosas que a debacle eleitoral. Senhora Primeira-Ministra, faça um favor a si própria e demita-se!
João Jonet
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