Caos em Westminster


O Reino Unido está num momento de viragem política. As suas duas maiores forças são lideradas por perfeitos incapazes que tentam emular os piores líderes da história de ambos os partidos, polarizando a cena política e deixando o centro abandonado, à mercê de um líder Liberal-Democrata com o Q.I. de um amendoim e a capacidade oratória desse mesmo fruto seco.

Theresa May é uma fiel discípula de Benjamin Disraeli um protecionista agro-conservador que liderou os "Tories" na segunda metade do séc. XIX, opondo-se ao conservadorismo liberal defendido por Robert Peel e companhia  e a todas as importantíssimas reformas que estes propuseram. A sua oposição ao liberalismo económico ficou famosa, mas felizmente vagas de Liberais que desertaram para os conservadores apagaram este pensamento do partido. May parece querer ressuscitar este Partido de Disraeli, morto há mais de 100 anos, para mal do Reino Unido. A Primeira-Ministra parece aproximar-se assim de Trump, cuja referência é Andrew Jackson, um do piores Presidentes da história dos EUA.

Corbyn consegue ligar-se a um líder ainda pior, pois se Disraeli ainda foi Primeiro-Ministro e conseguiu algumas vitórias no campo da política externa, Michael Foot, o ídolo corbynista só tem desgraças no currículo. Líder do Labour no início dos anos 80, em apenas 3 anos conseguiu dividir o partido em dois, com a criação do SDP (Partido Social Democrata) para albergar os centristas do partido, prometer uma sovietização da economia britânica e sofrer a maior derrota dos trabalhistas desde que estes são um dos dois maiores partidos de Terras de Sua Majestade. Pacifistas iludidos, marxistas desatualizados, cruzados anti-burgueses e hipócritas defensores do proletariado, Foot e Corbyn são fotocópias ideológicas, populistas por natureza que prometem mundos e fundos, sem quaisquer garantias.

A política britânica está assombrada por estes fantasmas e o seu outrora dominante centro liberal parece ferido de morte. Aliás esta é a primeira eleição em muitos anos sem um partido que defenda sem receio os valores do liberalismo clássico. Nenhuma liderança partidária se atreve a defender os valores da tolerância, pró-globalização e comércio livre de Sir Robert Peel. Essa tarefa recaía normalmente sobre o Partido Liberal, mas a sua união com o SDP em 1983 levou à infusão de elementos de centro-esquerda como Tim Farron que desvirtuam os valores do partido. Apesar disto ainda é nas fileiras dos Lib-Dems que se encontram os valores certos para o Reino Unido e a sua proposta de levar a referendo o acordo final com a UE torna ainda mais aliciante a possibilidade de apoiar este partido.

Um voto nos liberais é o único que pode ser visto como um voto a favor da globalização e com as radicais ideologias dos líderes dos dois maiores partidos é de prever que alguns conservadores e trabalhistas mais centristas tentem criar uma força política liberal ao estilo do "En Marche!", que possa competir com as maiores forças políticas e trazer mudanças positivas ao Reino Unido.

Os Lib-Dems teriam o meu voto, não tanto pelo que propõem, mas pelo que podem vir a ser. Os valores tradicionalistas protecionistas dos conservadores, que rompem totalmente com os de David Cameron, cheiram a mofo e ameaçam o futuro económico e o estado social britânico, para além de serem uma afronta aoas seus valores de liberdade, modernismo e diversidade. As políticas de socialismo democrático de Corbyn ameaçam levar o país à bancarrota e destruir os seus sistemas de defesa, com graves repercussões para a NATO. A continuação do SNP como terceira maior força política é um risco para a União e para os escoceses, que parecem não perceber que não têm condições para ser independentes. A única coisa positiva desta eleição é o desaparecimento do UKIP, apesar de os seus eleitores estarem a levar a sua ideologia repugnante para os conservadores.

Depois de uma mudança sísmica como o "Brexit", as réplicas ainda não chegaram ao sistema político: quem votou conservador em 2015 vai votar da mesma maneira daqui a 3 dias e o mesmo acontecerá com os trabalhistas. Mas um "tsunami" de descontentamento e de falta de identificação ideológica está a formar-se, os partidos e o eleitorado parecem não se compreender mutuamente. Ao longo da história os britânicos têm visto o seu sistema político revolucionar-se, normalmente depois de eleições tão polarizadas como esta. Cisões, novos partidos, realinhamentos ideológicos e eleições caóticas costumam seguir-se.

João Jonet

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