Previsão

No dia das eleições gerais no Reino Unido, tento adivinhar quantos deputados terá cada um dos grandes partidos, com a ajuda da minha observação, cruzamento de números de sondagens e alguma especulação. Dada a falta de qualidade das sondagens britânicas, fazer prognósticos torna-se muitíssimo complicado, especialmente porque estamos a falar de 650 eleições a decorrer ao mesmo tempo, com especificidades culturais, histórico-eleitorais e qualidade individual dos candidatos a pesar muito no resultado final. Por mais arriscado que seja, aqui fica o que acho que vai acontecer:
Conservadores: 315 a 365 Members of Parliament - a margem parece grande, mas a previsão é simples: Theresa May vai quase de certeza conseguir uma maioria absoluta, mesmo que o Sinn Féin (partido irlandês que não ocupa os lugares para que é eleito em Westminster em protesto) consiga apenas manter os seus 4 deputados (é possível que chegue aos 6), o número de deputados necessário para uma maioria será 324, valor mais que ao alcance de May, que lidera neste momento 330 parlamentares. No entanto, esta maioria mais que provável será a confirmação de que estas eleições foram um erro de cálculo terrível. A perda de uma liderança de 20% nas sondagens em dois meses, contra um Partido Trabalhista com uma liderança altamente incompetente e uma mensagem absolutamente desatualizada, mostra a falta de qualidade de May com as miragens de 100 ou mais deputados ganhos a esfumarem-se, e todo o processo a parecer uma bastante idiota manobra política.
Trabalhista: 215 a 265 MP's- Corbyn, e principalmente a máquina trabalhista, conseguiram criar à sua volta a ideia de que eram eles os defensores de um "Soft Brexit", apesar da oposição do seu líder ao modelo capitalista e à globalização. O Manifesto do Labour foi dos mais esquerdistas de sempre, mas muitas das ideias mais loucas da ala esquerda foram suprimidas pela estrutura deixada por Blair e Brown. No fim do dia, apesar de o partido ter conseguido domar mais o seu líder do que eu esperava, o que fez a diferença foi o entusiasmo que Corbyn gerou, em contraste com uma Primeira-Ministra aborrecida e inepta, que nunca foi eleita e que foi escolhida como consequência de uma daquelas transições britânicas à antiga de que os súbditos de Sua Majestade parecem estar fartos. Corbyn até pode perder lugares (apesar de fazer muito provavelmente melhor figura em termos de voto popular), devido ao desaparecimento do UKIP; pode mesmo vir a perder a sua liderança (a fraca mensagem dos Conservadores pode levar os membros do seu partido a concluir, com razão, que com uma mensagem "blairite" esta eleição estaria ganha), mas conseguiu ser o candidato da mudança. Uma mudança errada, como foi a de Trump, mas uma mudança, e disso é que a malta gosta.
Partido Nacionalista Escocês (SNP): 40 a 50 MP's- Nicola Sturgeon (PM escocesa) é pouco carismática e pouco inteligente. A líder conservadora na Escócia é um modelo político para qualquer observador, logo é natural que o SNP perca lugares nestas eleições. O desgaste de uma parte do povo escocês com a constante promessa de independência e um ressurgimento do Labour e dos Lib Dems na região levarão o partido a perder cerca de 9% do voto popular e 6 a 16 lugares.
Liberais Democratas: 5 a 15 MP's: a campanha não foi boa, mas as propostas são das melhores. Tim Farron e as suas ideias sociais-democratas estão desfasadas da génese do partido e a sua manifesta falta de qualidade argumentativa não ajuda, mas a mensagem liberal, pró-Europa, pró-globalização está lá, mais do que em qualquer partido. Com algumas das grandes figuras do partido a tentarem recuperar os lugares perdidos no massacre de 2015 e com os deputados incumbentes a serem figuras bastante mediáticas (até porque são poucos e o partido é grande), parece-me que há margem para crescer, reduzida devido ao facto de os "remainers" conservadores não terem abandonado o seu partido em massa e por Corbyn se ter conseguido projetar como pró-europeu. Mesmo assim, ganhar 1 a 7 MP's já era um bom resultado. No entanto, o risco de perder lugares para o voto útil é uma realidade histórica deste partido.
Verdes: 1 MP- engolidos pela onda "corbynista", só deveram manter o bastião da sua líder.
UKIP - 0 MP's- missão cumprida, acabou a festa, com os conservadores a garantirem um "Brexit" à sua maneira, o partido de extrema-direita caminha a passos largos para a irrelevância.
Plaid Cymru- 1 a 2 MP's - Numa eleição marcada pelo voto útil e com o independentismo galês fora de moda, só o mais forte reduto poderá resistir, com o outro assento parlamentar do partido, ameaçado pelos trabalhistas, provavelmente perdido.
Independentes- 1 MP - É pouco comum na Grã-Bretanha, mas em East Devon, na Cornualha, uma candidatura independente parece bem encaminhada.
Sem muitas sondagens, não vou debruçar-me sobre os 18 lugares da Irlanda do Norte, que são disputados apenas por partidos locais.
Ficam assim feitas as minhas previsões, com margens de erro tão grandes como as sondagens que as sustentam. Acho que fica a ideia que Theresa May será a grande derrotada da noite para mim, porque não conseguirá o portentoso mandato de 100 ou mais MP's que procurava. A Primeira-Ministra pode ter os dias contadas, especialmente num partido que gosta de uma boa "facada nas costas". Margaret Thatcher que o diga...
João Jonet
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