Sem liberdade de escolha
Estamos a menos de uma semana das eleições gerais do Reino Unido, eleições que determinarão quem será o próximo Primeiro Ministro Britânico - o líder de governo que irá liderar as difíceis negociações pós-Brexit que aí vêm entre a União Europeia e o Reino Unido.
Tudo indica que será a Conservadora Theresa May a vencer as eleições. Tudo... excetuando a tendência de estreitamento da em tempos abissal diferença entre as intenções de voto nos conservadores e nos trabalhistas. É que, se da última vez que escrevi, havia sondagens que davam diferenças de mais de 20% entre as intenções de voto nos dois partidos, desde então as preferências pelo Labour têm aumentado significativamente, e os conservadores têm perdido bastante terreno.
No entanto, não há sondagem que preveja a vitória do Labour, e continuo confiante de que a vitória pertencerá a Theresa May. Dado o atual paradigma, não me espanta tanto a força que Corbyn tem ganho nos últimos tempos. Um mundo que se entusiasma com Sanders e Trump, arqui-inimigos da globalização, também se fascina com Corbyn, líder igualmente hostil à globalização.
Esta reviravolta de tendências deve-se, penso, aos dois grandes fatores em política: a forma e o conteúdo.
Comecemos pelo último. Quem compara Theresa May com a última mulher PM do Reino Unido, a também conservadora Margaret Thatcher, fá-lo apenas porque as duas são mulheres pertencentes ao Partido Conservador - coisa superficial de se fazer. Aliás, dos líderes conservadores que sucederam a Margaret Thatcher, Theresa May é possivelmente a que mais se afasta do Thatcherismo. May representa muito mais aquilo a que se chama 'Red Conservatism' e 'One-nation Conservatism' do que o entusiasmo e ênfase na liberdade e no mercado livre, valores que a Dama de Ferro defendia mais do que tudo. 'Red Conservatism' é a fação ideológica conservadora mais de esquerda, que pretende conquistar os votos da classe trabalhadora (normalmente associada aos partidos Trabalhistas e Socialistas) através de políticas que reduzam desigualdades, ofereçam mais proteções legais aos trabalhadores, corrijam os "excessos e deficiências do capitalismo e mercado livre", promovendo a coesão social, através, também, de políticas sociais conservadoras. O 'One Nation Conservatism' é uma noção semelhante do Conservadorismo - enfatiza a ideia de que a sociedade não é apenas um conjunto de indivíduos, que há obrigações que uns têm para com os outros, que as classes mais privilegiadas devem agir de forma a protegerem também os interesses das classes mais desfavorecidas, de forma a que a sociedade seja apenas uma (One Nation), e que não se divida em duas sociedades mutuamente exclusivas - a sociedade rica e a sociedade pobre.
Theresa May é muito mais uma apologista desta noção do conservadorismo do que da noção Thatcherista, bastante mais liberal em termos económicos, que realça a importância do indivíduo (mais do que da sociedade enquanto elemento orgânico) e da sua capacidade de criar riqueza. Daí estar presente no programa conservador para as eleições de 2017 a rejeição do "culto do individualismo" e propostas de políticas como a regulação e imposição de barreiras à compra de empresas britânicas por empresas estrangeiras, a regulação da imigração e a redução dos seus números, a inclusão dos trabalhadores nos quadros das empresas, a imposição de limites máximos aos preços da energia e a redistribuição de riqueza das partes mais favorecidas do Reino Unido para as restantes áreas do país. Estas e outras políticas apresentadas por Theresa May marcam uma diferença considerável em relação à posição mais liberal do seu antecessor, David Cameron (que, ironicamente, se diz grande admirador do fundador da noção de 'One Nation Conservatism' - esta admiração não parece ter-se concretizado na maior parte das suas políticas).
Esta fação conservadora consegue ir buscar votos aos eleitores das classes mais desfavorecidas, que, nas últimas eleições, votaram em grande parte no UKIP e no Labour. Theresa May consegue atrair os votos do UKIP facilmente com a sua abordagem pró-trabalhador e o seu discurso 'Hard Brexit'. Conseguindo segurar a larga maioria dos que votaram nos conservadores em 2015, o partido Conservador consegue, assim, aumentar o seu número de eleitores nestas eleições (ao que as sondagens indicam). No entanto, ao abandonar uma mensagem mais liberal, e sobretudo ao adotar uma posição mais dura em relação às negociações com a União Europeia, estes conservadores vão buscar muito poucos votos aos que podem estar na dúvida entre votar no Partido Conservador ou nos 'Liberal Democrats', o partido Liberal Centrista.
Seria de esperar que esta nova mensagem Conservadora fosse também buscar votos ao partido Trabalhista. Essa é a intenção e é uma possibilidade. Em parte, isso vai acontecer; mas esta estratégia funcionaria melhor com um labour de Ed Miliband ou Tony Blair (um Labour cosmopolita, bastante mais liberal e próximo da centro) do que com o Labour de Jeremy Corbyn, que, se apela a algum grupo, é precisamente à classe trabalhadora mais desfavorecida. Para roubar muitos, muitos votos ao Partido Trabalhista, Theresa May teria de apelar ao eleitorado mais centrista, visto Corbyn ser o líder mais esquerdista que o Labour já teve em tempos recentes. No entanto, a sua posição 'Hard Brexit' não lho permite, e as suas propostas estão desenhadas mais para ir roubar votos aos membros da classe trabalhadora, que desconfiam da União Europeia, que tendem a ser mais socialmente conservadores e menos cosmopolitas; mas Corbyn está lá precisamente para segurar esses eleitores. Chegamos a uma situação bizarra em que (talvez pela primeira vez) a classe que não tem representação clara é a classe média, liberal, cosmopolita e progressista (os Liberal Democrats são os que mais se aproximam dessa representação, mas não é um partido da importância que só os Conservadores e os Trabalhistas têm). Obviamente que o partido Conservador, ainda assim, se aproxima muito mais da defesa dessa visão economicamente mais liberal do que o partido Trabalhista, sendo os conservadores, até, muitas vezes atacados por defenderem os interessas de poucos, e não de todos.
Chegamos, então, à questão da forma. É que, mesmo sendo Corbyn ideologicamente uma barreira à transferência de votos do Labour para os Conservadores (uma vez que o ambos os programas parecem focar os seus esforços na mesma classe, que, tradicionalmente, é leal ao Trabalhistas - e daí Corbyn ser um entrave à transferência de votos da classe trabalhadora), a liderança e a atitude de Corbyn poderiam, ainda assim, permitir essa fuga para os conservadores, dada a completa incapacidade de Corbyn e da sua equipa em passar uma imagem consistente, dinâmica, forte e convincente. E a verdade é que esta desgraçada liderança se prolongou durante meses. Até que um dia, Theresa May decide marcar eleições, e, de súbito, Corbyn ganha uma força que nunca se imaginaria que ganhasse, não tanto por mérito seu, mas, a meu ver, muito por responsabilidade do grupo mais jovem, que se agarrou a ele e não mais o largou. Corbyn leva a reboque todo o seu partido, e esta nova dinâmica parece ser inabalável - não importam as constantes gaffes de uma das suas maiores apostas, Diane Abbott, não importam as suas mesmas gaffes, o seu histórico, as suas simpatias por grupos terroristas e as suas antiquadas políticas a todos os níveis - o líder Trabalhista parece outro, já ri, já diz piadas, está mais provocador... e leva consigo um apoio incondicional dos jovens: os jovens que se dizem cidadãos do mundo e apoiam um homem que ataca tudo o que à globalização diz respeito, que se dizem acérrimos defensores da União Europeia e apoiam um homem que sempre dela foi crítico (exceto enquanto líder do Partido Trabalhista), que se dizem defensores dos oprimidos e apoiam um homem que agradeceu a Hugo Chávez pelo seu serviço e defende Fidel Castro sempre que pode...
Ainda sobre a questão da forma, acresce o facto de Theresa May se ter recusado a participar em debates televisivos com os outros candidatos - facto que lhe é relembrado cada vez que aparece em público e que fragiliza a sua imagem forte e estável (minando o seu lema "Strong and Stable Government").
Não nos assustemos tanto assim: Theresa May lidera todas as sondagens, e em quase todas consegue obter uma maioria que lhe permite formar governo, e, embora Theresa May não seja propriamente a líder ideal, é o sapo que, face a um líder trabalhista que roça a chanfradice, tem de ser engolido. De facto, como aponta o The Economist, o centro desvaneceu da política Britânica - com May, desvaneceu principalmente devido à sua atitude face ao Brexit: uma atitude que parece ser demasiado insensível ao que está em jogo; com Corbyn, o centro nunca esteve nas suas ambições, e não estará se o partido Trabalhista vencer as eleições - as suas propostas incluem a maior carga fiscal desde a Segunda Guerra, nacionalizações a torto e a direito, subida brutal do salário mínimo, posições muito pouco claras em relação à defesa e à reação do Reino Unido face a ameaças externas nucleares, despesa pública descontrolada; além disso, Corbyn tem no seu cadastro uma simpatia por tiranos e grupos terroristas de que parece não se envergonhar.
Nesta fase, há que saber escolher entre dois não-centros, e Theresa May parece ser a única escolha disponível.
S.G.
Tudo indica que será a Conservadora Theresa May a vencer as eleições. Tudo... excetuando a tendência de estreitamento da em tempos abissal diferença entre as intenções de voto nos conservadores e nos trabalhistas. É que, se da última vez que escrevi, havia sondagens que davam diferenças de mais de 20% entre as intenções de voto nos dois partidos, desde então as preferências pelo Labour têm aumentado significativamente, e os conservadores têm perdido bastante terreno.
No entanto, não há sondagem que preveja a vitória do Labour, e continuo confiante de que a vitória pertencerá a Theresa May. Dado o atual paradigma, não me espanta tanto a força que Corbyn tem ganho nos últimos tempos. Um mundo que se entusiasma com Sanders e Trump, arqui-inimigos da globalização, também se fascina com Corbyn, líder igualmente hostil à globalização.
Esta reviravolta de tendências deve-se, penso, aos dois grandes fatores em política: a forma e o conteúdo.
Comecemos pelo último. Quem compara Theresa May com a última mulher PM do Reino Unido, a também conservadora Margaret Thatcher, fá-lo apenas porque as duas são mulheres pertencentes ao Partido Conservador - coisa superficial de se fazer. Aliás, dos líderes conservadores que sucederam a Margaret Thatcher, Theresa May é possivelmente a que mais se afasta do Thatcherismo. May representa muito mais aquilo a que se chama 'Red Conservatism' e 'One-nation Conservatism' do que o entusiasmo e ênfase na liberdade e no mercado livre, valores que a Dama de Ferro defendia mais do que tudo. 'Red Conservatism' é a fação ideológica conservadora mais de esquerda, que pretende conquistar os votos da classe trabalhadora (normalmente associada aos partidos Trabalhistas e Socialistas) através de políticas que reduzam desigualdades, ofereçam mais proteções legais aos trabalhadores, corrijam os "excessos e deficiências do capitalismo e mercado livre", promovendo a coesão social, através, também, de políticas sociais conservadoras. O 'One Nation Conservatism' é uma noção semelhante do Conservadorismo - enfatiza a ideia de que a sociedade não é apenas um conjunto de indivíduos, que há obrigações que uns têm para com os outros, que as classes mais privilegiadas devem agir de forma a protegerem também os interesses das classes mais desfavorecidas, de forma a que a sociedade seja apenas uma (One Nation), e que não se divida em duas sociedades mutuamente exclusivas - a sociedade rica e a sociedade pobre.
Theresa May é muito mais uma apologista desta noção do conservadorismo do que da noção Thatcherista, bastante mais liberal em termos económicos, que realça a importância do indivíduo (mais do que da sociedade enquanto elemento orgânico) e da sua capacidade de criar riqueza. Daí estar presente no programa conservador para as eleições de 2017 a rejeição do "culto do individualismo" e propostas de políticas como a regulação e imposição de barreiras à compra de empresas britânicas por empresas estrangeiras, a regulação da imigração e a redução dos seus números, a inclusão dos trabalhadores nos quadros das empresas, a imposição de limites máximos aos preços da energia e a redistribuição de riqueza das partes mais favorecidas do Reino Unido para as restantes áreas do país. Estas e outras políticas apresentadas por Theresa May marcam uma diferença considerável em relação à posição mais liberal do seu antecessor, David Cameron (que, ironicamente, se diz grande admirador do fundador da noção de 'One Nation Conservatism' - esta admiração não parece ter-se concretizado na maior parte das suas políticas).
Esta fação conservadora consegue ir buscar votos aos eleitores das classes mais desfavorecidas, que, nas últimas eleições, votaram em grande parte no UKIP e no Labour. Theresa May consegue atrair os votos do UKIP facilmente com a sua abordagem pró-trabalhador e o seu discurso 'Hard Brexit'. Conseguindo segurar a larga maioria dos que votaram nos conservadores em 2015, o partido Conservador consegue, assim, aumentar o seu número de eleitores nestas eleições (ao que as sondagens indicam). No entanto, ao abandonar uma mensagem mais liberal, e sobretudo ao adotar uma posição mais dura em relação às negociações com a União Europeia, estes conservadores vão buscar muito poucos votos aos que podem estar na dúvida entre votar no Partido Conservador ou nos 'Liberal Democrats', o partido Liberal Centrista.
Seria de esperar que esta nova mensagem Conservadora fosse também buscar votos ao partido Trabalhista. Essa é a intenção e é uma possibilidade. Em parte, isso vai acontecer; mas esta estratégia funcionaria melhor com um labour de Ed Miliband ou Tony Blair (um Labour cosmopolita, bastante mais liberal e próximo da centro) do que com o Labour de Jeremy Corbyn, que, se apela a algum grupo, é precisamente à classe trabalhadora mais desfavorecida. Para roubar muitos, muitos votos ao Partido Trabalhista, Theresa May teria de apelar ao eleitorado mais centrista, visto Corbyn ser o líder mais esquerdista que o Labour já teve em tempos recentes. No entanto, a sua posição 'Hard Brexit' não lho permite, e as suas propostas estão desenhadas mais para ir roubar votos aos membros da classe trabalhadora, que desconfiam da União Europeia, que tendem a ser mais socialmente conservadores e menos cosmopolitas; mas Corbyn está lá precisamente para segurar esses eleitores. Chegamos a uma situação bizarra em que (talvez pela primeira vez) a classe que não tem representação clara é a classe média, liberal, cosmopolita e progressista (os Liberal Democrats são os que mais se aproximam dessa representação, mas não é um partido da importância que só os Conservadores e os Trabalhistas têm). Obviamente que o partido Conservador, ainda assim, se aproxima muito mais da defesa dessa visão economicamente mais liberal do que o partido Trabalhista, sendo os conservadores, até, muitas vezes atacados por defenderem os interessas de poucos, e não de todos.
Chegamos, então, à questão da forma. É que, mesmo sendo Corbyn ideologicamente uma barreira à transferência de votos do Labour para os Conservadores (uma vez que o ambos os programas parecem focar os seus esforços na mesma classe, que, tradicionalmente, é leal ao Trabalhistas - e daí Corbyn ser um entrave à transferência de votos da classe trabalhadora), a liderança e a atitude de Corbyn poderiam, ainda assim, permitir essa fuga para os conservadores, dada a completa incapacidade de Corbyn e da sua equipa em passar uma imagem consistente, dinâmica, forte e convincente. E a verdade é que esta desgraçada liderança se prolongou durante meses. Até que um dia, Theresa May decide marcar eleições, e, de súbito, Corbyn ganha uma força que nunca se imaginaria que ganhasse, não tanto por mérito seu, mas, a meu ver, muito por responsabilidade do grupo mais jovem, que se agarrou a ele e não mais o largou. Corbyn leva a reboque todo o seu partido, e esta nova dinâmica parece ser inabalável - não importam as constantes gaffes de uma das suas maiores apostas, Diane Abbott, não importam as suas mesmas gaffes, o seu histórico, as suas simpatias por grupos terroristas e as suas antiquadas políticas a todos os níveis - o líder Trabalhista parece outro, já ri, já diz piadas, está mais provocador... e leva consigo um apoio incondicional dos jovens: os jovens que se dizem cidadãos do mundo e apoiam um homem que ataca tudo o que à globalização diz respeito, que se dizem acérrimos defensores da União Europeia e apoiam um homem que sempre dela foi crítico (exceto enquanto líder do Partido Trabalhista), que se dizem defensores dos oprimidos e apoiam um homem que agradeceu a Hugo Chávez pelo seu serviço e defende Fidel Castro sempre que pode...
Ainda sobre a questão da forma, acresce o facto de Theresa May se ter recusado a participar em debates televisivos com os outros candidatos - facto que lhe é relembrado cada vez que aparece em público e que fragiliza a sua imagem forte e estável (minando o seu lema "Strong and Stable Government").
Não nos assustemos tanto assim: Theresa May lidera todas as sondagens, e em quase todas consegue obter uma maioria que lhe permite formar governo, e, embora Theresa May não seja propriamente a líder ideal, é o sapo que, face a um líder trabalhista que roça a chanfradice, tem de ser engolido. De facto, como aponta o The Economist, o centro desvaneceu da política Britânica - com May, desvaneceu principalmente devido à sua atitude face ao Brexit: uma atitude que parece ser demasiado insensível ao que está em jogo; com Corbyn, o centro nunca esteve nas suas ambições, e não estará se o partido Trabalhista vencer as eleições - as suas propostas incluem a maior carga fiscal desde a Segunda Guerra, nacionalizações a torto e a direito, subida brutal do salário mínimo, posições muito pouco claras em relação à defesa e à reação do Reino Unido face a ameaças externas nucleares, despesa pública descontrolada; além disso, Corbyn tem no seu cadastro uma simpatia por tiranos e grupos terroristas de que parece não se envergonhar.
Nesta fase, há que saber escolher entre dois não-centros, e Theresa May parece ser a única escolha disponível.
S.G.

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