Resiliência a mais

No séc. XXI algumas mulheres "tocaram o céu" no campo muito machista e muito restritivo que é a política. Dilma Rousseff tornou-se Presidente do Brasil, Cristina Kirchner fez o mesmo na Argentina, Angela Merkel é há 12 anos Chanceler alemã, Ségolène Royal e Marine Le Pen chegaram à segunda-volta das eleições francesas, Theresa May tornou-se a segunda Primeira-Ministra britânica e, nos E.U.A., Hillary Clinton tornou-se a primeira mulher nomeada por um grande partido e Nancy Pelosi é líder dos Democratas na Câmara dos Representantes há quase 15 anos, tendo sido a primeira mulher Speaker. Se alguns destes casos são exemplos óbvios do nepotismo que durante o último século foi a maneira mais fácil das mulheres entrarem na política (Kirchner, Marine e mesmo Hillary chegaram onde chegaram em grande medida por serem da família de lendas do seu espectro político, apesar de Marine ter demonstrado um talento político muito próprio), outros são casos de superação de barreiras impressionantes como Merkel e Pelosi, que exibiram qualidades políticas e uma efetividade que lhes permitiram subir a pulso. Temos ainda as instâncias em que estas mulheres conseguiram dominar máquinas partidária muito complexas, apesar de depois lhes faltar o carisma para vencer convenientemente eleições (Royal e May).
Este artigo não serve para esmiuçar a quantidade de mulheres que entraram na política, nem servirá apenas para homenagear estas pessoas. A ideia de que o género tem alguma relação com as qualificações, e que se deve quebrar o "telhado de vidro", nunca me atraiu por si só. Prova disso é que entre estas pessoas estão algumas das mais nocivas personalidades políticas das últimas décadas. Gostava que Hillary tivesse ganho o ano passado e via essa superação de barreiras como um "bónus" agradável, mas já não posso dizer o mesmo sobre Le Pen, que teria sido um desastre completo. Não quer isto dizer que não admire a luta das mulheres na política em todas as instâncias, dadas as condições desiguais que as eleições americanas mostraram que ainda enfrentam.
O que pretendo é analisar características comuns que algumas das grandes mulheres do séc. XX e XXI me parecem partilhar. De Golda Meir a Indira Gandhi, passando por Tatcher e por Merkel, as mulheres na política até agora têm exibido um pragmatismo que admiro profundamente (são de excluir aqui as populistas da América do Sul, como Dilma, Kirchner ou Michelle Blanchet). Conhecidas como líderes implacáveis, mas justas, as maiores figuras femininas das últimas décadas parecem partilhar uma impressionante resiliência e coragem política. Meir, Tatcher e Gandhi quebraram estereótipos ao liderarem os seus países em conflitos armados de grande sucesso: Merkel foi a estóica líder da Europa durante a crise do Euro e é agora a maior defensora mundial, a par de Macron e Trudeau, dos valores do liberalismo ocidental.As reformas que Merkel e Thatcher implementaram nos seus países demonstraram um sentido de Estado inigualável e, apesar de questionável, o apoio de Gandhi à comunidade Hindu que levou à sua morte foi resoluto e impressionante.
Esta coragem não é de estranhar: afinal, é preciso ter muita confiança para ser uma mulher na política, mas parece ter um lado negativo. Quando uma mulher quebra o "telhado de vidro", parece, compreensivelmente, ter especial dificuldade para se afastar quando é preciso. O instinto de sobrevivência que advém do clima de discriminação constante traz consigo um grande problema, uma aparente falta de sensibilidade para perceber quando é preciso recuar. Hillary Clinton, que não merecia ter perdido as primárias de 2008 para Obama, não conseguiu perceber que as suas aspirações presidenciais tinham sido terminadas nessa violenta campanha, monopolizando o Partido Democrata em 2016, retirando espaço a líderes mais novos e afundando o partido com a sua imagem robótica e personalidade distante. Como Hillary há muitos mais exemplos. Thatcher lutou furiosamente contra os ventos de mudança no fim do seu mandato, recusando-se a acautelar devidamente a sua sucessão, o que levou ao seu humilhante afastamento; Julia Gillard, a primeira PM da Austrália, recusou-se a reconhecer que estava fragilizada, perdendo também o seu cargo na forma de um vexame público; Park Geun-hye (Coreia do Sul) e Dilma Rousseff sofreram "impeachments" devido à sua falta de tato; e Yulia Tymoshenko (Ucrânia) continua a tentar ser Primeira-Ministra outra vez, apesar da sua imagem ser completamente tóxica neste momento. Theresa May sofreu uma derrota eleitoral que a deixou ferida de morte, mas prefere pôr a Irlanda do Norte em polvorosa outra vez a reconhecer as suas fragilidades. Le Pen foi achincalhada nas legislativas, mas recusa demitir-se e, apesar de os Republicanos usarem a imagem radioativa de Pelosi (elitista urbana demasiado à esquerda para o americano comum) há 7 anos, esta recusa-se a ceder o lugar, com vários líderes democratas da House a abandonarem a Câmara por não verem a possibilidade de progressão. Merkel está a candidatar-se pela quarta (!!!) vez, apesar de só ter ganho uma vez de forma convincente, sem nunca alcançar uma maioria absoluta.
Por mais competente que uma pessoa seja, e Merkel, Hillary e Tatcher são exemplos claros de competência, o desgaste faz parte da política e a renovação também. No entanto, estas grandes mulheres, ao "tocarem o céu", parecem ter grandes dificuldades para o largar. Não é obviamente uma característica específica do género - grandes lendas políticas, como Helmut Kohl ou Mário Soares, parecem também ter perdido esta capacidade crítica de perceber que tudo tem um fim. No fundo, as mulheres parecem vítimas do enorme feito que alcançam ao chegar ao poder, convencendo-se que são invencíveis e insubstituíveis.
Longe de estar a sugerir que as mulheres deixem de seguir a política, acho que devíamos fazer um grande esforço para normalizar a presença de mulheres na política. Vamos pensar que o sufrágio feminino já tem cerca de cem anos no Ocidente, e que já é perfeitamente normal ter mulheres em cargos políticos de relevo. Normalizar é um sacrifício porque, de facto, os feitos são enormes, mas, se permitir políticas mais pragmáticas e sensíveis à opinião pública, é capaz de valer a pena. Se queremos o melhor "Brexit" possível, se queremos os Democratas a controlar o Congresso em 2018 (as derrotas nas eleições especiais estão intimamente ligadas à imagem negativa de Nancy Pelosi), e a Casa Branca em 2020, esta relativização é imperativa, até para evitar que a direita conservadora use a candidatura de mulheres para impelir a sua base misógina a defender os "valores tradicionais contra a ascensão do feminismo radical".
João Jonet
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