Malditas vitórias morais


Durante os últimos três meses decorreram nos Estados Unidos  cinco eleições com vista a substituir os membros da Câmara dos Representantes que renunciaram ao seu mandato depois de terem sido eleitos a 8 de Novembro do ano passado. Quatro dos lugares pertenciam aos republicanos Mike Pompeo (novo Diretor da C.I.A.), Tom Price (nomeado Secretário da Saúde), Ryan Zinke (Secretário do Interior) e Mike Mulvaney ( Diretor do Gabinete para a Gestão Orçamental da Casa Branca). O único lugar democrata em disputa era o de Xavier Becerra, escolhido para suceder à recém-eleita Senadora Kamala Harris como Procurador-Geral da Califórnia. Estas eleições especiais são comuns, pois quando há eleições que renovam os ocupantes de cargos federais e estaduais, alguns membros costumam ser escolhidos ou para fazer parte da equipa do novo Presidente (como foram estes quatro republicanos), ou para ocupar cargos na administração estadual.

Sozinhas, estas cinco eleições não tinham muita importância, mas todas juntas servem para melhor compreender o panorama político americano e o nível de descontentamento do povo americano, especialmente da base republicana, pois os "districts" republicanos são assentos historicamente seguros, logo uma derrota significaria que Trump tinha perdido o apoio do seu eleitorado, o que faria prever um massacre nas "midterms" de 2018 (legislativas em que é eleita a Câmara dos Representantes e um terço do Senado).

Analisarei as eleições cronologicamente e não por ordem de importância, o que fará com que o melhor fique para o fim.

Antes de seguirmos para o sul do Kansas, é preciso explicar uma coisa importante. Há "districts" em que temos a certeza absoluta que o vencedor será de um partido, alguns em que temos um grau bastante elevado de certeza, outros em que podemos estar relativamente confiantes num resultado e outros que estão tão divididos ideologicamente que o resultado é uma incógnita. Estas previsões são facilitadas por uma coisa chamada "Cook Partisan Voting Index", um indíce que classifica os estados e "congresssional districts" como mais X% republicanos ou democratas que a média do país, com base nos resultados de eleições anteriores, tanto para o Congresso como para a Presidência. Quando os "districts" estão 15% acima da média, quer dizer que são sítios seguros para o partido incumbente. Acima de 10% também torna o vencedor bastante previsível e mesmo acima de 5%  dá para acertar na maioria das vezes, apenas nesse mágico espaço é que se torna algo imprevisível, com esses 81 lugares a decidirem quem tem a maioria na Câmara dos Representantes (o número tem vindo a diminuir com a radicalização política e o fenómeno de aglomeração de pessoas que pensam da mesma maneira).

Vamos então começar com o 4º "congressional district" do Kansas, anteriormente ocupado por Mike Pompeo. Este sítio é classificado como R + 15 (ou seja, bastante seguro), a população é 84% branca e Hillary só teve 33% aqui, com nenhum democrata a passar dos 40% há quase 20 anos. O DCCC (Democratic Congressional Campaign Committee) considerou (como parecia óbvio) que este era um sítio impossível de ganhar, não disponibilizando nem fundos nem apoio em grande escala a James Thompson, um pouco conhecido advogado veterano do exército que concorria contra Ron Estes, o Tesoureiro Estadual. Com uma abstenção muito elevada, esperava-se que Estes fosse beneficiado, como os republicanos normalmente são. No entanto, Thompson conseguiu ganhar mais 16% do voto em relação ao candidato democrata derrotado em 2016, perdendo por apenas 6% (52%-46%) Esta performance encorajou os democratas e assustou o GOP, que, se vir os seus adversários ganharem míseros 5%, em 2018 perderá certamente a maioria.

Passamos para o Montana, onde o "congressional district" engloba todo o Estado, que apesar da sua classificação R +11 conta com um Senador e um Governador democratas, o que mostra a imprevisibilidade das eleições no "Big Sky State". Apesar  de ser 90% branco, 46% rural e de Hillary ter perdido o Estado por 21 pontos percentuais, algumas esperanças foram depositadas em Rob Quist, um cantor de música "country", que se associou a Bernie Sanders , apregoando mensagens populistas de esquerda que lhe valeram o epíteto de "populista da pradaria", uma espécie política americana em vias de extinção. Com mais apoios nacionais e com o seu adversário republicano, o empresário Greg Gianforte, a decidir agredir um jornalista na véspera da eleição, as suas hipóteses de suceder a Ryan Zinke não pareciam más de todo, mas acabou por perder 50%-44% (ganhando apenas mais 3,5% dos votos que o candidato democrata em 2016), numa prova de que a base republicana rural mantém o seu ódio visceral à imprensa e o seu apoio a Trump.

Depois veio o 34º "congressional district" da Califórnia, que engloba uma parcela de Los Angeles. Classificado D +35, o "district"é 9% branco e votou Hillary 84%-11% no ano passado. Como admite segundas-voltas, a 6 de Junho defrontaram-se dois democratas (como aconteceu nas últimas duas eleições), com o único republicano na primeira-volta a ter uns míseros 4%. Bom exemplo da polarização política americana. Caso interesse a alguém, Jimmy Gomez substituirá o icónico Xavier Becerra em D..C.

Por fim, ontem tivemos as duas eleições que terminaram este ciclo.

No 5º da Carolina do Sul, conhecido por ser o district de Frank Underwod em "House of Cards",  Archie Parnell, um democrata da Goldman Sachs que fez anúncios aproveitando a famosa série do "Netflix" (ver aqui), teve muito poucos apoios numa corrida que parecia certa para Ralph Norman, congressista estadual. Contra todas as expetativas, Parnell perdeu apenas por 3% num muito lisonjeiro resultado final de 51%-48% num "district" R+9. A subida de 10% em relação a 2016 é mais uma fantástica vitória moral para os democratas.

Ontem, ninguém estava a pensar na Carolina do Sul porque todos os olhos estavam no 6º da Geórgia, um subúrbio de Atlanta onde a segunda-volta da corrida ao Congresso gerou as maiores expetativas a nível nacional. Hillary perdeu o 6º por apenas 1%, apesar de este ser R+8 e este era visto como um dos sítios que podia ditar o futuro dos democratas, tendo em conta que é a população republicana suburbana que é mais avessa a Trump. Um "district" rico e com uma população com elevado nível de formação académica seria normalmente presa fácil para um GOP liberal conservador pré-Trump, mas em 2017 é um dos sítios em que é possível ver se os Democratas podem voltar a ganhar Estados como a Geórgia, o Texas ou a Carolina do Norte. Na primeira-volta, doze republicanos apresentaram-se neste que era o "district" do afamado Speaker conservador Newt Gingrich. Com isto Jon Ossoff, um jovem produtor de cinema e ex-assessor no Congresso de apenas 30 anos, o único candidato Democrata sério, passou à segunda volta com 48% dos votos, contra os 20% de Karen Handel, ex-Secretária de Estado da Geórgia. Numa eleição louca, foram batidos todos os recordes de despesas numa corrida para a House, com os democratas a injetarem quase 30 milhões na campanha de Ossoff e os republicanos a fazerem o mesmo com Handel. Por cada cêntimo proveniente deste "district" que entrava em cada uma das campanhas entravam 10$  vindos do exterior. No fim, Ossoff não conseguiu ultrapassar a barreira republicana, perdendo por 52%-48%, uma subida de 10% em relação à última eleição.

Concluindo, os democratas subiram em média 10% nos quatro "districts" bastante republicanos que foram a votos este ano. Se assim for a nível nacional, terão uma maioria muito confortável em 2018. Com essa maioria, poderão iniciar um processo de "impeachment" que no mínimo lavará a "roupa suja" de Trump para que todos possam ver, fragilizando brutalmente a imagem do Presidente.Há claramente descontentamento com Trump  a nível nacional e com os congressistas republicanos e as suas propostas que visam destruir a regulação da banca de investimento, poluir rios com carvão e destruir as proteções do "Obamacare", substituindo a lei com um terrível plano de saúde.  Esta é a parte positiva. Por outro lado, os democratas continuam a perder. A eleição presidencial deu uma vitória moral a Hillary Clinton, e assim tem continuado. As grandes apostas no Montana e na Geórgia, apesar de bem pensadas, não deram em nada, e os sítios que o partido ignorou como a Carolina do Sul e o Kansas acabaram por surpreender. O DCCC parece ter um "toque de Midas" invertido neste momento, e essa incapacidade aparente para compreender o público americano, que já se tinha percebido em Novembro, não parece ter sido corrigida. Ossof e Parnell são os candidatos liberais que o partido devia ter apoiado, mas o abandono a Parnell e a aposta em Quist mostra que o partido ainda não decidiu se quer aproxiamar-se da esquerda (com Bernie à cabeça) ou do centro (na linha dos Clintons, de Obama e de Al Gore). Se estes erros não forem corrigidos, Trump poderá ter chances de ser re-eleito, o que já seria um desastre.

João Jonet

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