Golpe de Estado; Golpe Falhado

Depois de um trágico ataque terrorista em Nice, sem tempo para luto ou descanso, a comunicação social acompanhou ontem o desenvolvimento de uma tentativa de Golpe de Estado na Turquia. Hoje, sabemos que não passou de uma tentativa falhada. As consequências, porém, estão ainda por vir e não devem ser positivas.

A tentativa de Golpe de Estado teve em vista a preservação do Estado Secular, segundo as Forças Armadas, que, aliás, se têm declarado como as protetoras do legado de Ataturk, o fundador da República (democrática e secular) da Turquia. De facto, desde 1923, ano de fundação da República, houve já 3 Golpes de Estado em que as FA intervieram no sentido de anular riscos de islamização e autocratização do regime. A última intervenção militar com sucesso foi em 1980.

Para perceber a eventual causa desta tentativa de golpe, é necessário olhar para a história recente da política turca. A Turquia tem sido governada há mais de uma década pelo Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP), um partido conservador neo-otomanista e islamista, que tem contrariado o caráter secular e democrático do regime turco; Recep Erdogan tem sido a cara desta transição revivalista islâmica anti-secular e antidemocrática. Isto é perigoso. O legado de Erdogan, enquanto Primeiro Ministro e Presidente, é um de desrespeito pela liberdade de expressão; de confronto com as Forças Militares; de alargamento do conceito "terrorista" de forma a abranger políticos e jornalistas inconvenientes ao regime; de condenações de todos aqueles que suspeita de serem uma ameaça ao seu regime nos chamados "Julgamentos Ergenekon"; de desrespeito pelos direitos humanos; de uma relação com o Ocidente mais hostil e interesseira; de uma atitude face ao Estado Islâmico para alguns demasiadamente branda, sendo sabido que a Turquia e o Daesh têm um inimigo comum, os independentista curdos; de um gradual controlo sobre os meios de comunicação... Erdogan tem, ainda, um historial de fundamentalismo Islâmico revelador, tendo sido preso por incitar à intolerância religiosa. 

Apesar de tudo, Erdogan foi eleito democraticamente, e, por isso, os líderes internacionais apelaram a que o povo turco rejeitasse o golpe de estado e que as forças militares aceitassem a escolha democrática dos turcos. Em Istambul, o povo (ou parte dele) enfrentava os tanques das Forças Armadas, e depois de anulada a tentativa de golpe, Erdogan, ao chegar a Istambul, foi euforicamente recebido pelos civis. 

Este entusiasmo por alguém como Erdogan é assustador. A Turquia tem um potencial que outros países islâmicos não têm: foi secularizada por um herói nacional, sem intervenção externa. Este fator permite que o laicismo turco possa ser defendido como um legado cultural interno, e não encarado como o resultado do "intervencionismo imperialista", como uma imposição externa ilegítima. Por isso mesmo, é uma pena que Erdogan e os seus companheiros do AKP estejam, a cada dia, a afastar a Turquia desse modelo que lhe tem permitido boas e benéficas (e voluntárias) relações com o Ocidente, e esteja a enveredar por um caminho perigoso, em que dá espaço ao fundamentalismo islâmico e à sua intervenção nos assuntos do Estado. Seria uma pena que a Turquia abandonasse o legado de Ataturk.

As consequências, tais como as motivações, desta tentativa de Golpe são incertas e há que respeitar as decisões democráticas do povo turco. No entanto, Erdogan não tomará medidas simpáticas. Se já era conhecido o seu caráter vingativo e implacável, este é um ótimo pretexto para se ver livre dos que ameaçam a sua consolidação de poder. Tendo sobrevivido a um golpe militar, pouco ou nada derrubará Erdogan. Podem estar, assim, reunidas as condições para que se aprofunde o ataque ao Estado Secular. É caso para dizer que pior que um Golpe de Estado é a tentativa falhada de um Golpe de Estado...
S.G.

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