Angela Eagle e o Regresso da Terceira Via
Já estamos todos um bocadinho fartos das notícias vindas de Terras de Sua Majestade. O problema é que (quase) todos os dias há uma novidade. Primeiro saem da União Europeia, depois o Primeiro Ministro demite-se, depois os membros do Partido Trabalhista votam uma moção de não-confiança ao líder Jeremy Corbyn, depois aquele que estávamos à espera que se candidatasse à liderança do Partido Conservador não se candidata, depois o líder do principal partido responsável pela realização do referendo (o UKIP) demite-se, depois já só há duas mulheres candidatas à liderança do Partido Conservador, depois já sabemos quem vai ser a nova Primera Ministra do Reino Unido e sabemos que vai tomar posse já amanhã...
Hoje, porém, focamo-nos no Labour (o Partido Trabalhista). O controverso líder do partido da classe trabalhadora, Jeremy Corbyn, na sequência das demissões em massa dos membros do seu governo sombra, e da aprovação pelos deputados do seu partido da moção de não-confiança à sua liderança, viu a chefia do seu partido muito fragilizada. No entanto, recusou demitir-se, apoiando-se num argumento bastante razoável: o facto de ter sido eleito há menos de um ano com 60% dos votos (mais de 250 mil preferências pelo seu nome). De notar que o candidato que ficou em 2º lugar nesta eleição obteve apenas 20% dos votos.
Mas desengane-se aquele que acha que isso chega. Surge da poeira levantada pelo Brexit uma ameaça a Corbyn. Nome: Angela Eagle. Mais uma mulher que poderá vir a liderar o Reino Unido. Eagle anunciou o seu "desafio" à liderança de Corbyn ontem, acusando o atual líder Trabalhista de não ter uma liderança forte e de não se ter empenhado na campanha pela permanência do Reino Unido na União Europeia. E quem é esta Sr.ª Eagle?
Deputada Trabalhista desde 1992, já exerceu diversas funções, tanto no governo como na oposição. Mais recentemente, Eagle fez parte do enorme grupo de membros do governo sombra de Corbyn que se demitiram depois do resultado do referendo.
Ontem, na apresentação da sua candidatura, Angela Eagle afirmou "Eu não sou uma Blairite, não sou uma Brownite, nem uma Corbynysta. Sou uma mulher de mim mesma!" Mas a afirmação talvez não tenha tanto de verdade quanto parece. É que a deputada trabalhista é a personificação do New Labour, o Labour de Tony Blair, o da terceira via, o euro-entusiasta, o intervencionista desmedido. Angela Eagle foi uma figura proeminente da campanha pelo "Remain"; votou a favor da intervenção Britânica no Iraque (aquela que se sabe que foi um desastre e que, ao contrário do que diziam, era evitável e infundada, essa mesma!); votou contra todas as propostas de investigação da intervenção Britânica no Iraque; absteve-se em relação aos cortes da Segurança Social; votou a favor de bombardear a Síria; votou a favor da introdução e do aumento do valor das propinas... É, portanto, muito difícil aceitar que Eagle não seja aquilo que diz não ser - uma Blairite ou Brownite, uma mulher da esquerda soft, da política que já foi experimentada no Reino Unido por 13 anos.
Em termos pessoais, importa apenas referir que Angela Eagle foi uma das primeiras deputadas assumidamente homossexuais e foi a primeira deputada lésbica a casar-se.
Se Angela Eagle conseguir tomar a liderança do Partido Trabalhista, uma coisa é certa: os trabalhistas irão voltar-se para o centro, e tomarão uma postura a la Blair. Deste modo, não serão tão socialistas quanto se afirmam, mas passarão a ter algo que faz falta em política: a perspetiva de chegar ao poder.
S.G.

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