Uma Casa Dividida

Abraham Lincoln disse uma vez que "Uma casa dividida contra si própria não pode continuar de pé" e, se houve um exemplo disso, foi a primeira tarde/noite da Convenção Democrata. Momentos confrangedores em que os oradores foram silenciados por gritos a clamar por Bernie e por Hillary em resposta seguiram-se até que a comediante Sarah Silverman, em vez de ignorar os sinais de revolta como todos os outros, foi direta ao assunto e disse que os apoiantes de Bernie estavam "a ser ridículos", um ataque particularmente forte por vir de uma apoiante do Senador de Vermont.
Recuemos um bocadinho no tempo, para o início do mês, quando as reuniões para o programa do partido ("platform") correram de forma amigável e levaram a compromissos assinaláveis que levaram os Democratas mais para o lado de Bernie em termos ideológicos. Nessa altura, tudo parecia bem, Sanders tinha aceitado a derrota, tinha apoiado Hillary e mostrava vontade de trabalhar arduamente para a sua eleição.
A escolha de Tim Kaine para a Vice-Presidência acabou por aumentar ligeiramente a tensão. Um Governador e Senador moderado, que considera as leis do aborto nalguns Estados demasiado liberais e que é um grande defensor da globalização e do comércio livre. Tudo o que os apoiantes de Sanders não desejavam confirmou-se. Hillary até pode fazer campanha mais à esquerda, mas vai governar mais ao centro. Tim Kaine é um candidato que acrescenta muito pouco em termos eleitorais, mas que tem experiência governativa e tem muito boas qualificações para ser Presidente, caso o pior aconteça. Hillary assumiu, como esta escolha mostra, que tem a eleição ganha e está já a preparar a sua administração. Para além disso, se tivesse escolhido Elizabeth Warren, Cory Booker ou Sherrod Brown, carismáticos Senadores progressistas, estes teriam sido substituídos de forma temporária por Governadores Republicanos, o que poria em causa uma futura conquista do Senado.
Mas o que realmente causou instabilidade foi um acontecimento mesmo em cima da Convenção. Entre Domingo e Segunda, foram divulgados mais de 20 mil e-mails da liderança do Partido Democrata (DNC) em que a sua líder, Debbie Wasserman Shultz, se mostrava alinhada com as ideias de Hillary e ridicularizava as hipóteses de Bernie Sanders ser o nomeado. Isto levou à demissão da pessoa que devia presidir à Convenção. Rapidamente se espalhou o caos e a revolta entre os apoiantes de Bernie.
Assim, a Convenção foi aberta pela promissora "Mayor" de Baltimore, com gritos insistentes em favor de Sanders, tão insistentes que levaram a mulher cujo único trabalho era falar um bocadinho e dar uma martelada a esquecer-se de martelar, voltando depois a correr para o palco para cumprir a tradição. Um mero sinal do caos que se seguiria.
Durante todos os discursos (menos os de crianças, proeminentes figuras da comunidade LGBT e pessoas com deficiência, mostrando alguma educação dos revoltosos) os gritos de "Bernie" sobrepuseram-se à voz do orador, até que Sarah Silverman subiu ao palco e, com a sua bombástica declaração, ia levando a Arena a uma batalha campal. O que vale é que quem veio a seguir foi Paul Simon, que cantou "Like a Bridge Over Troubled Water", para acalmar os ânimos.
Apesar do caos, é notório o facto de os oradores serem muito melhores do que na Convenção Republicana, de tudo ser mais profissional, de haver mais ideias e de as críticas serem mais construtivas e educadas.
Discursos fantásticos de Bernie e de Cory Booker fizeram com que a casa viesse a baixo e Michelle Obama também foi muito bem recebida (talvez a planear uma carreira política própria). Com o discurso do seu querido líder, os "Sandernistas" parecem ter caído na real, o que se notou por muitos estarem a chorar, e a partir de agora a Convenção deve ser mais calma, mas muito do mal já está feito.
Os Democratas não mostraram unidade, mesmo quando a tentaram ensaiar com o Senador Al Franken e Sarah Silverman no pulpito, com o ex-comediante a tentar iniciar um cântico a gritar "Hillary" e a atriz a tentar iniciar um de "Unity" ao mesmo tempo.
As fragilidades ficaram à vista. Para o bem do Mundo espera-se que os democratas ultrapassem isto.
João Jonet
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