Rescaldo do caos

Acabou a Convenção Republicana de 2016. O evento de propaganda que costuma proporcionar uma subida nas sondagens nas semanas consequentes foi um espetacular desastre. Péssimos oradores, falta de ideias (pelo menos ideias racionais), ataques constantes e negatividade de sobra caracterizaram um dos mais deprimentes e engraçados acontecimentos do ano.
Estas convenções costumam ter três coisas importantes:
- Oradores que emanam da sociedade civil, celebridades ou pessoas que se destacam em determinadas áreas que funcionam como um humanizador do partido e uma maneira de aumentar a popularidade do candidato. O problema é que nesta Convenção a celebridade mais conhecida era o nomeado, que, devido à sua mensagem radical, afastou qualquer outra grande personalidade. Falaram pessoas como um modelo de roupa interior, o CEO da reputada série de campónios a caçar patos "Duck Dynasty", a 5425675246ª melhor golfista do mundo ou Scott Baio, um ator que, tal como Trump, perdeu todo o interesse na transição para os anos 90.
- Grandes figuras do Partido, ainda a exercer cargos públicos, ou não, que são conhecidos pelo seu carisma, qualidade discursiva ou propostas populares e inovadoras. O melhor que Trump conseguiu arranjar foi o ex-Speaker Newt Gingrich, que se escondeu num buraco em 2001 e depois voltou em 2012 para ser humilhado publicamente numa eleição presidencial com acusações de infidelidade.
Os dois ex-Presidentes Republicanos ainda vivos (Bush pai e filho) não aceitaram ser associados a Trump e a maioria dos Republicanos mais influentes seguiu o exemplo (com Mitt Romney e John McCain à cabeça). Trump parece ter o apoio dos líderes republicanos no Congresso, mas é um apoio tão pouco genuíno que prejudica mais do que ajuda (Paul Ryan, o Speaker, fez um longo discurso em que apresentou apenas as suas ideias para o futuro do país, acabando com um envergonhado apoio a Trump).
- Pessoas a apoiar o candidato também costumam estar entre os oradores. Normalmente, essas pessoas têm eleições no ano na Convenção e precisam da publicidade, mas também as pessoas com ambições presidenciais futuras costumam discursar. No primeiro caso, quase nenhum candidato ao Congresso se quis associar a este desastre, chegando ao ponto de Rob Portman (Senador do Ohio e candidato a re-eleição este ano) organizar uma Convenção paralela na mesma cidade (que contou com melhores oradores e organização). Quanto aos futuros candidatos presidenciais, para além de Paul Ryan (que tem de falar por ser o mais importante Republicano eleito), Ted Cruz foi o único que se chegou perto do pulpito, bem a tempo de puxar o tapete a Trump e aconselhar as pessoas a "votar em consciência, em candidatos a todos os cargos" numa das mais belas e merecidas facadas nas costas da História política americana.
A Convenção revelou-se um total desastre e o último dia não foi exceção, com um discurso repleto de raiva e mentiras de Donald Trump pintar um retrato de uns Estados Unidos pós-apocalípticos que só existem na sua cabeça e que só ele pode salvar. Salvou-o outro discurso fantástico da sua filha mais velha, Ivanka, que, com uma intervenção marcada por uma mensagem positiva e revigorante, mostrou que, de facto, há um membro do clã Trump com qualidades para ser Presidente, mas não é o seu pai.
João Jonet
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