Que Futuro?

Passado pouco mais de um mês desde o surpreendente resultado da votação do referendo à permanência do Reino Unido na União Europeia, valerá a pena analisar as perspectivas de futuro tanto da União Europeia como do Reino Unido.
As semanas imediatamente anteriores e posteriores ao dia da votação ficaram marcadas por declarações bombásticas, de ambos os lados, que anunciavam o fim do mundo, a terceira guerra mundial, o fim da civilização... Agora que a situação política já está mais calma, vale a pena reapreciar o paradigma atual, sem sermos afetados pelas declarações apaixonadas e fatalistas que dominavam a comunicação social há umas semanas.
Ouvíamos, por exemplo, personalidades como Jean Claude Juncker dizer, antes da votação do referendo, que a Grã-Bretanha ("os desertores") não seria recebida "de braços abertos", caso resolvesse abandonar a União Europeia; ou David Cameron, que referia o crescimento e o bom estado da economia como fatores que deveriam levar os britânicos a votar "Remain", indicando que "do outro lado" estava um conjunto de incertezas que poderia levar a perda de empregos e que seria uma ameaça às famílias e ao futuro do país. Matteo Renzi, o PM italiano, também afirmou que a decisão de abandonar a UE seria "pior do que um desastre, uma tragédia, ou o fim do mundo".
Hoje, já há uma atitude mais paciente, tolerante e esperançosa em relação ao futuro do Reino Unido, da União Europeia e da relação entre ambos. Prova disso foi a declaração afável do nada afável presidente do Parlamento Europeu (que neste Blog já foi também afavelmente comentado), afirmando que o Reino Unido "não deveria ser tratado como um desertor", contrariando as palavras do Presidente Juncker.
A verdade é que a solução que daqui sair terá sempre consequências importantíssimas para o futuro da UE e do Reino Unido. Já muito se disse em relação ao modelo do acordo entre RU e UE, havendo muitos que defendem uma relação "à norueguesa". No entanto, uma das questões centrais da política do Reino Unido tem que ver com a elevada taxa de imigração, associada ao livre movimento de pessoas na União Europeia. Assim, a solução "à norueguesa" peca pelo facto de permitir o livre movimento de pessoas que o Reino Unido rejeitou no referendo. Mas a UE tem vindo a afirmar que não há acesso ao mercado livre sem livre movimento de pessoas. Tudo dependerá, portanto, do poder negocial do Reino Unido e da tolerância (que parece ser maior) da União Europeia. Se, por um lado, o mercado de 500 milhões de habitantes é algo de que o Reino Unido não pode abdicar, também é verdade que o eleitorado tem deixado claro que os níveis de imigração têm de ser reduzidos. Este é um dos maiores desafios que Theresa May terá pela frente - o de conciliar a questão económica com a questão da imigração, que ela própria disse por várias vezes ser demasiado elevada. Falta, ainda, mencionar a ameaça que o Brexit constitui para futuro do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte, e que também está dependente do estatuto do Reino Unido na UE.
Apesar de tudo, o futuro da UE está também extremamente dependente do resultado das negociações futuras. Por um lado, a UE - infeliz projeto político que é - não pode mostrar que quem quer sair da União o pode fazer sem consequências. Deste modo, terá que adotar uma postura determinada. Por outro lado, não poderá mostrar que é uma organização antidemocrática, devendo aceitar a decisão sem represálias, sem vinganças, sem vexames e humilhações rancorosas face aos britânicos.
Assim, a União Europeia terá que atuar num campo muito limitado, e de fronteiras muito ténues, em que, por um lado, não pode deixar que o abandono seja visto pelos outros países-membro como um processo fácil e vantajoso, sem contrapartidas, e, por outro, tem de contrariar a imagem que tem vindo a ser formada da UE, a de uma organização que ignora a soberania dos estados-nação e que age sempre com o intuito de expandir a sua influência política.
Temos, assim, um país e uma organização muitíssimo expectantes, aventurando-se num processo nunca antes experimentado e cujos resultados terão consequências determinantes e inevitáveis para ambos os lados. Até lá, falta ainda muito tempo (a previsão é de 2 anos), mas a espera vale a pena.
S.G.
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