Ideologia e Realidade
Hoje venho falar de um tema que a cada dia considero mais incompreensível: a suposta dicotomia ideologia-realidade. Trata-se de um dos argumentos mais populares e mais frequentemente utilizados na política, e parece ser aplicável a todas a situações em que uma parte (partido, movimento...) basicamente quer dizer a outra parte "Eu sou mais sério do que tu!".
Há-de o leitor reparar (se ainda não o fez) que a ideologia tem muito má reputação por cá. O político português frequentemente conota a ideologia a um fanatismo utópico (apelando ao desastre soviético) destruidor da civilização e da democracia. Ao perigo ideológico, o político sério e pragmático apresenta a única alternativa: a realidade, uma perceção absoluta que se nos impõe e a que só poderemos fugir se formos intelectualmente desonestos. Mas a desonestidade intelectual está precisamente em fazer esta oposição de ideias, e mais ainda em sugerir que uns - os empenhados, honestos, sérios e pragmáticos - se baseiam na realidade, enquanto que outros, moral e intelectualmente inferiores, se apoiam invariavelmente na ideologia, esse atentado à paz e à estabilidade.
Ora, em política, qualquer escolha é ideológica. Tudo é ideologia, e mal seria se o não fosse, porque é a ideologia (ou o constrangimento ideológico que nos é imposto) a única justificação para que uma decisão seja tomada em detrimento de outra. Todas as decisões tomadas em política dependem de um conjunto de fatores, entre os quais se encontram a forma como encaramos a sociedade, a nossa sensibilidade a determinados fenómenos sociais e o nosso conceito de justiça... Tomemos como exemplo o pagamento de dívidas. O movimento "Não pagamos!" não é mais nem menos ideológico do que o "As dívidas são para ser pagas!", e o facto de a segunda posição ter levado a melhor em casos como o da Grécia não significa que seja fruto da "realidade que se impôs". Simplesmente, o contexto ideológico foi mais favorável ao "Pagamos!" do que ao "Não pagamos!". Obviamente que podemos julgar moralmente diferentes ideologias, podemos considerar que há ideologias do bem e ideologias do mal, podemos afirmar que há ideologias absurdas e ideologias fundamentadas; podemos, até, apoiar-nos em factos concretos para o fazer, mas não podemos fingir que as nossas opções, em vez de ideológicas, são baseadas na realidade inegável.
Além disso, estranho muito esse conceito de realidade absoluta, evidente a todos os que não estejam ideologicamente condicionados. Quem não está ideologicamente condicionado? E quem consegue fazer uma apreensão inquestionável da realidade? O que é facto é que todos nós, mesmo que inconscientemente, tomamos as nossas decisões baseados em preconceitos, em motivações próprias, que servem para satisfazer determinado propósito.
Além disso, estranho muito esse conceito de realidade absoluta, evidente a todos os que não estejam ideologicamente condicionados. Quem não está ideologicamente condicionado? E quem consegue fazer uma apreensão inquestionável da realidade? O que é facto é que todos nós, mesmo que inconscientemente, tomamos as nossas decisões baseados em preconceitos, em motivações próprias, que servem para satisfazer determinado propósito.
O que é triste é que seja a Direita a mais recorrente utilizadora deste argumento (embora, como afirmei, este seja um argumento muito popular em todas as fações). Lembro que, há poucos meses, o então Presidente da República Cavaco Silva veio, numa entrevista, afirmar que "embora a governação ideológica possa durar algum tempo, acaba sempre por ser derrotada pela realidade". Cá está! Cavaco Silva, que, sempre que possível, se afirma um não-político pragmático, não poderia dar melhor exemplo desta falsa oposição de conceitos, deste engano que é o de achar que há uma realidade que todos captam da mesma forma, e que apenas os mal intencionados é que optam pela decisão ideológica, quando, na verdade, não há decisão que não o seja.
E, por isso, quando alguém vem dizer que, em política, a realidade, de uma maneira ou de outra, prevalece sobre a ideologia, ou é tão fanático quanto acha que são os que acusa de tomarem decisões ideológicas (como se outras houvesse), ou contém a resposta a um mistério epistemológico há tanto por desvendar. Era bom que fosse a segunda, mas duvido que não seja a primeira.
S.G.
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