Um Bicho de Duas ou Mais Cabeças
O Bipartidarismo já teve melhores dias no Ocidente. Em vários países, parece ter acabado o dilema "Esquerda (moderada)- Direita (moderada)". Há, em vez disso, uma mixórdia ideológica, um enorme número de partidos grandes e partidos pequenos, uma complicada rede de coligações pré e pós-eleitorais...
Em Portugal, havia o PSD e o PS, servindo o CDS-PP para dar uma "ajudinha" para se chegar ao poder. No entanto, o governo atual mostrou que, agora, todos os partidos são determinantes e que a formação do governo não depende apenas do partido mais forte.
Em Espanha, a situação política ainda ontem abordada não se resume à oposição PP-PSOE. Há, hoje, quatro grandes partidos, todos com perceções diferentes da realidade Espanhola, todos com motivações ideológicas distintas, e esta diversidade ideológica levou à impossibilidade de formar um governo (isto porque o Bloco de Esquerda, ao lado do Podemos, é um menino bem comportado).
No Reino Unido, embora haja um governo apoiado por um só partido, há um partido regional, o Scottish National Party, que ocupa 54 lugares. Recordo que, antes da surpresa que foi a maioria absoluta do Partido Conservador em maio de 2015, falava-se na possibilidade de haver uma coligação entre o Partido Trabalhista e o SNP. No RU, surgiu, ainda, o UKIP, um partido populista e eurocético, que, embora só tenha elegido 1 deputado para a Câmara dos Comuns, obteve 12.7% dos votos da população, tendo contribuído para fraturar o eleitorado conservador. Há, também, os Liberal Democrats, mas esses existem há muito e já se sabe o que esperar deles.
Na Grécia, um partido de extrema esquerda, o Syriza, acabou com a hegemonia do PASOK e da Nova Democracia que vinha desde 1974.
Em França, a Frente Nacional está pujante, mete medo à direita porque lhe tira votos, e intimida a esquerda porque está perto de lhe retirar o poder.
Na Áustria, foi também a cisão ideológica (neste caso, anterior à maioria dos casos acima mencionados) que levou a que, numa 1ª volta das eleições presidenciais (realizada em finais de abril deste ano), houvesse 2 candidatos pertencentes a partidos alternativos: Os Verdes e o Partido da Liberdade da Áustria (extrema-direita).
E pela Europa fora vai-se verificando este fenómeno, de forma mais ou menos consistente. Muitas são as causas que podem ser atribuídas a esta situação, mas, em relação às consequências, a grande diversidade ideológica tem levado a uma crescente influência de partidos marginais, que ganham poder com a distribuição de votos anteriormente direcionados a um só partido. A ingovernabilidade parece ser outra consequência desta "feira" de partidos e movimentos.
Nos Estados Unidos, o bipartidarismo parece resistir. Também neste regime há problemas. Por exemplo, verifica-se que há um extremar de posições dos dois partidos, sendo este facto mais evidente no Partido Republicano, mas disto já muito se falou.
Voltando à Europa, hoje parece que não há ideologia que não vá a votos: temos os comunistas, uns marxistas-leninistas stalinistas, outros trotskistas, temos Os Verdes, temos os sociais-democratas, temos os socialistas, temos os centristas, temos os liberais, e os sociais liberais, que é outra coisa, temos os democratas-cristãos, que agradecem não serem confundidos com os conservadores, temos os populistas, temos os neo-nazis, temos os renovadores, temos os progressistas, temos os nacionalistas, temos os anarco-capitalistas, um bocadinho de libertários, e temos os anarco-comunistas. Só não temos governo.
Volta, bipartidarismo, estás perdoado!
S.G.
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