Multi-partidarismo hipócrita


Vivem-se momentos políticos delicados, tanto em Espanha como em Portugal. Depois de várias décdadas de rotatividade tranquila entre os dois maiores partidos, as eleições do Inverno de 2015 terminaram esta paz podre.
Os povos ibéricos dividiram mais o voto entre todas as forças políticas, como vinha a acontecer nos últimos anos em eleições locais e europeias. No entanto, as razões desta divisão são muito diferentes nos dois países. Os espanhóis mostraram maturidade política, votando de forma informada e contribuindo para que quatro partidos com diferenças ideológicas vincadas  dividissem o espectro político. Um partido iberal tanto a nível económico como social (Ciudadanos) e um partido de esquerda radical (Podemos) juntaram-se assim à direita conservadora (PP) e à social-democracia desatualizada (PSOE) para criar um "buffet" de opções políticas para todos os gostos.
O problema é que o eleitor espanhol está muito à frente do político em termos de cultura democrática. Ao fim de 40 anos, os espanhóis foram votar como suecos mas esqueceram-se do país onde estavam. Ódios pessoais (ninguém gosta de Rajoy), demagogia cega (Iglesias não se mostrou à altura do momento) e sede de protagonismo (Pedro Sanchéz, tal como Costa, preferiu conservar o poder interno a dar estabilidade ao país) impediram que Espanha tivesse uma solução governativa e atiraram-na para novas eleições. Isto apesar da extraordinária atitude do "C's" durante todo o processo, tentando sempre o consenso e uma solução que evitasse novo plebiscito, atitude que curiosamente lhe parece ter custado nas sondagens.
Em Portugal, foi tudo ao contrário. O eleitor votou nas cores, como sempre (é mais fácil que ouvir ideias), e, estando chateado com o cor-de-laranja, distribuíram-se as intenções por tonalidades  de encarnado. Partidos sem propostas, que gritam mais do que pensam e que têm o mesmo programa desde 1974 ( o Bloco ao menos teve a decência de mudar de nome e de formato) acabaram por mostrar a tal cultura democrática que faltou aos partidos espanhóis (não há nada mais estranho que fazer um comentário deste acerca do PCP), conseguindo uma solução que vai de acordo com os interesses da maioria do Parlamento e evitando um clima de instabilidade que levaria a novas eleições.
Só nos resta ver quem sai melhor desta situação, sendo que parece bastante óbvio que vai ser a Espanha, apesar de terem cometido um erro, dada a natureza demagoga da maioria portuguesa.
João Jonet

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