Por uma Unha Negra!
O próximo presidente da Áustria será, então, o economista Alexander Van der Bellen, que já pertenceu ao partido mainstream de centro-esquerda, o Partido Social-Democrata, e também aos Verdes, sendo de notar que "Os Verdes" da Áustria é um partido com bastante força política e diferente dos nossos Verdes, sempre juntinhos ao PCP. Van der Bellen é um defensor da União Europeia, assumindo-se um Federalista Europeu, e é liberal nas questões sociais. É, portanto, um homem de esquerda, mais à esquerda do que o SDP, mas, ainda assim, pode ser considerado um moderado.
Norbert Hofer é, por sua vez, um membro do Partido da Liberdade (FPO), outrora liderado pelo carismático e controverso Jorg Haider, e que assume posições associadas à extrema-direita, como, por exemplo, a oposição feroz à imigração, euroceticismo, laivos de racismo, tendo o FPO, no seu historial, um número considerável de membros Nazis e simpatizantes do Terceiro Reich, sendo de realçar o seu fundador, Anton Reinthaller, que serviu o Regime Nazi como Ministro da Agricultura.
A história é quase sempre a mesma. Há um povo descontente com instituições como a União Europeia, com políticas de imigração, com a crise económica..., há um partido que apresenta propostas mais extremadas que satisfazem grande parte da população, que se encontra descontente com a classe política em geral e vê nestes outsiders uma forma de castigar os políticos "tradicionais", e (não) surpreendentemente, há um candidato de extrema-direita que não é eleito Presidente por apenas 7 décimas percentuais.
Na verdade, com a eleição de Hofer para a Presidência da República, muito pouco mudaria, uma vez que quem verdadeiramente governa a Áustria é o Chanceler, e não o Presidente. No entanto, é certo que o clima político se alteraria, e o movimento de extrema-direita da Áustria ganharia uma força institucional inédita nos últimos 60 anos.
Mas o problema é global, e se a história tem sido a mesma, parece que o mainstream político não anda atento, não tendo feito nada para alterar a situação. Porque uma coisa é reconhecer que este quase-Presidente é um homem que seria desastroso para a política austríaca. Outra coisa bem diferente é ignorar que há, de facto, uma situação que deve ser alterada e ignorar que há, de facto, gente descontente. Ficar parado à espera que "os maus" não ganhem é cobardia. Dizer que se está no "lado certo da História" e não tentar combater os cancros do sistema é preguiça. Defender que, por sermos moderados, não temos que nos sujeitar às críticas a que os radicais são sujeitos é arrogância. Fingir que não há problemas com a imigração, apenas para não recebermos o rótulo de "fascista" já não pega. Fingir que a União Europeia é um organismo perfeito que só promove felicidade e cooperação também não.
Há (não há dúvidas sobre isso) problemas sérios associados à economia e às questões sociais. Os "radicais" têm-nos apresentado soluções, por mais ridículas que as possamos considerar. O sistema, pelo contrário, não reage. Já é tempo de os acomodados da política se adaptarem aos novos tempos e apresentarem soluções novas, em vez de se apoiarem num paradigma que já se alterou, provavelmente, de forma irreversível.
S.G.
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