O Gorila Harambe e os Justiceiros da Internet

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O título do artigo parece adequado a um episódio de uma sequela do tipo Harry Potter, mas em que o protagonista é um gorila com nome próprio que se junta, ainda não sei bem como, a um grupo de internautas com espírito de missão, para todos participarem numa aventura inesquecível. Fica a ideia. Porém, o assunto é um bocadinho mais sério.
Neste fim de semana, no Jardim Zoológico de Cincinnati, no Estado de Ohio, EUA, uma criança de 4 anos caiu no recinto de um gorila que, estranhando a presença da criança no seu espaço, esteve durante 10 minutos com ela a inspecioná-la e ocasionalmente a transportá-la de um lado para o outro, até ter sido tomada a decisão de matar o gorila, de forma a não arriscar a vida da criança. Ora, este acontecimento "incendiou" as redes sociais, expressão que já enjoa de tão frequentemente usada - mas este é um problema das redes sociais, que, realmente, incendeiam com qualquer coisa. Esta não foi qualquer coisa. Morreu um gorila, um animal que pertence a uma espécie em vias de extinção. Mais que isso, podia ter morrido uma criança de 4 anos. Felizmente, a equipa do Jardim Zoológico tomou a decisão acertada. Surpreendentemente, esta afirmação - ".. a equipa do Jardim Zoológico tomou a decisão acertada." - é altamente contestada pelas implacáveis redes sociais. É que há gente - mais do que seria esperado, muito mais do que seria razoável - a dizer que o gorila não devia ter "pago pelo erro de uma mãe irresponsável", sugerindo que a morte de um gorila para salvar uma criança não é aceitável, muito menos quando é fruto de uma má supervisão por parte da mãe. Ou seja, estas pessoas acreditam, no mínimo, que o gorila devia ter sido tranquilizado, não morto, e, no máximo, que a criança devia ter sido deixada morrer, porque o homem não é superior ao bicho, porque o gorila não tinha culpa nenhuma...
Em relação aos que dizem que um dardo tranquilizante serviria, importa referir que tal medida poderia ter enervado o gorila numa primeira fase, sendo, obviamente, um enorme risco.
Quanto aos que defendem que não havia qualquer prioridade da vida da criança sobre a do gorila, confesso que fico perplexo. Acreditem, é mesmo muita gente a sugerir isto. Há, depois, os que vêm desculpar os que fazem estas afirmações, defendendo que não se trata de deixar a criança morrer, mas apenas de condenar a atitude irresponsável da mãe. Mas, embora as redes sociais sejam um meio de muita ambiguidade, também é verdade que é o espaço em que toda a gente exprime a sua opinião, e temos de partir do princípio que as pessoas escrevem aquilo que querem escrever, e não aquilo que outros entendem que elas querem escrever. Mesmo assumindo que, afinal, dizer que o gorila não devia ter sido morto quer apenas dizer que a mãe do rapaz é irresponsável, mesmo dando esse desconto, é espantoso que tanta gente com tão pouca informação consiga fazer juízos tão categóricos acerca de alguém tão desconhecido numa situação tão insólita e, certamente, tão angustiante para a mãe. Mas essa é outra questão. Atenção: não duvide o leitor por um segundo que a morte de um gorila seja lamentável, mas é essencial ter em conta o contexto da situação.
Para além da desgraça que foi esta história, os acontecimentos que se seguiram a este desastre foram acompanhados de muita estupidez das duas partes. A (alegada) mãe do rapaz de 4 anos foi fazer uma publicação no Facebook, identificando-se irreversivelmente, e, consequentemente, identificando o seu filho, cuja escola que frequenta parece que já foi identificada por estes "Justiceiros da Internet". Esta proeza levou à segunda leva de estupidez, com gente a fazer "perseguições" virtuais à mãe, enviando-lhe emails ofensivos, ameaças, e até já há um movimento que pretende que a mãe da criança perca o emprego. É tudo gente com informação privilegiada acerca deste incidente, imagino...
Este é um caso exemplificativo daquilo que as redes sociais podem fazer: dão às pessoas o ambiente ideal para fazerem todo o tipo de juízos, baseadas no mínimo de informação possível... O gorila podia não ter morrido, podia, mas antes da criança ter caido no recinto. Depois disto, não havia dúvida sobre que vida privilegiar, e assusta-me que sobre isto se pense o contrário.
S.G.

Comentários

  1. E os DOIS leões do Zoo de Santiago do Chile que foram mortos, há menos de duas semanas, porque um homem se atirou para o seu recinto para se suicidar? A página IFLScience, que noticiou, começou, e com razão, a banir aqueles que diziam que o homem devia ter morrido. Se bem que nessa história, eles tentaram tranquilizar os leões, mas o dardo acertou no homem, por isso ele ficou quase em coma, com uma dose leonina de tranquilizante.

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  2. Nunca o Jardim Zoológico de Santiago poderia ser responsável pela morte de um visitante (ou intruso), e, por isso, por mais injusto que nos possa parecer matar dois (ou DOIS) leões para salvar um homem que se queria suicidar, defender que o homem deveria ter morrido é, mais uma vez, irrazoável.
    No caso do Zoo de Santiago, é realmente angustiante saber que dois leões morreram à custa de um homem que se queria matar, mas repito: o Zoo não podia ser responsável pela morte de um homem. Neste caso, é mais fácil arranjar responsáveis, a começar pelo suicida falhado. O caso de Cincinnati é bem diferente.

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