BREXIT! E agora?
Todos nos surpreendemos com as últimas sondagens sobre o referendo, que ou davam a vitória ao "Leave", ou davam a vitória ao "Remain" por uma margem muito curta. Mas, no fundo, poucos eram os que verdadeiramente acreditavam que o "Leave" pudesse ganhar. Com uma percentagem considerável de indecisos, o mais provável era que a maioria desses votos fosse pra o "Remain", permitindo a vitória do "In". No entanto, a história foi outra.
O resultado foi, como previsto, muito renhido, mas a vitória foi mesmo para o "Leave", por 52-48. Depois deste resultado, as consequências são ainda muito incertas. Até o Reino Unido de facto sair da União Europeia (se sair), ainda muito está por acontecer, estando previsto um período de dois anos para que se complete o processo de abandono da UE. Mas comecemos pelo que já se sabe.
O Primeiro Ministro anunciou que se irá demitir antes de outubro deste ano. O Referendo, cuja promessa de realização serviu para garantir a reeleição de David Cameron nas eleições de 2015, acabou por ser o carrasco da sua carreira política. Depois de admitir a derrota, David Cameron anunciou que irá "estabilizar o barco" até outubro, altura em que se realizará a conferência do Partido Conservador, onde deverá ser eleito o novo líder do partido e, consequentemente, o novo Primeiro Ministro do Reino Unido. Não há, portanto, qualquer obrigação de se realizarem eleições antes de 2020. No entanto, há suspeitas de que haverá eleições gerais daqui a uns meses. Tudo dependerá do líder que for eleito em Outubro. Com a vitória do "Leave", as personalidades mais prováveis são os eurocéticos Boris Johnson e Michael Gove, mas a Ministra do Interior Theresa May e o Chanceler do Tesouro (Ministro das Finanças) George Osborne não estão completamente descartados, apesar de serem apoiantes do "Remain".
A Libra desce a pique, dadas a incerteza e instabilidade que se adivinham. A situação tenderá a estabilizar, mas até não haver um plano pós-Brexit concreto, não poderemos contar com muito mais do que uma moeda fraca e baixo investimento. A City deve estar inquieta...
Em relação à União Europeia, já vieram os principais líderes europeus (Merkel, Hollande, e também Jean-Claude Junker e Martin Schulz) lamentar a decisão tomada pelos britânicos, respeitando, no entanto, a sua legitimidade.
David Cameron deixará para o seu sucessor o processo de abandono da União Europeia, o que quer dizer que caberá ao próximo líder do Partido Conservador invocar o artigo 50 do Tratado de Lisboa, que é o mecanismo formal de abandono da UE. E é por isto que os pedidos de vários "brexiteers" dirigidos a Cameron para que ele permanecesse na liderança do Reino Unido e do Partido Conservador me parecem sinceros. É que o artigo 50 implica que o processo de abandono e o acordo pós-brexit (neste caso) sejam discutido por todos os membros da União Europeia... exceto o Reino Unido. Ou seja, o RU será um elemento passivo da série de reuniões que decidirão a forma como o Reino abandonará a UE. Nenhum líder eurocético quererá estar sujeito às vontades (e porventura sermões) dos restantes países da União Europeia durante um período de discussão de 2 anos, mas é isso que deverá acontecer. Como alternativa, há a possibilidade de se fazer um acordo informal, mas é bastante improvável e, legalmente, não se vê como podem os britânicos fugir do artigo 50. Com o Reino Unido nunca se sabe...
A Primeira Ministra da Escócia, Nicola Sturgeon, já se prepara para exigir novo referendo à independência escocesa. Já sabíamos que só com muito boa vontade (e mais do que isso, provavelmente) é que os independentistas escoceses não iriam avançar com a proposta de realização de um novo referendo. Na Escócia, mais de 60% da população votou para ficar na União Europeia. Nicola Sturgeon afirmou que um segundo referendo lhe parecia muito provável, e, a não ser que o Reino Unido consiga fazer um acordo com a União Europeia de tal forma especial que consiga apaziguar as inquietações dos eurofilos escoceses, o referendo pode mesmo acontecer.
E por falar em referendos, circula na internet uma petição que propõe que haja um segundo referendo no caso de nenhuma das opções - "Leave" ou "Remain" - obter mais de 60% dos votos, com afluência inferior a 75%. A petição tornou-se tão popular que em poucas horas atingiu as 100 mil assinaturas, o número necessário para que a proposta em causa seja discutida no Parlamento. O site do Parlamento, que suporta a plataforma online de assinaturas, bloqueou várias vezes, de tão concorrido que estava. Embora este não seja ainda muito mais do que um fenómeno das redes sociais, convém estarmos atentos. Um segundo referendo também não é descartável, pelo menos por enquanto.
Há, ainda, uma segunda questão. É que este referendo não é vinculativo, o que quer dizer que servirá apenas de informação a que os deputados deverão recorrer para tomarem a sua decisão. Porém, seria extremamente arriscado desafiar a "recomendação" da maioria dos britânicos. Tal atitude poderia gerar uma onda de descontentamento entre os eleitores que votaram para abandonar a União Europeia, que por sua vez poderia resultar num crescimento perigoso do eleitorado do UKIP, o partido eurocético e populista do Reino Unido, cujo crescimento ameaçador nos últimos anos foi o principal fator responsável pela realização deste referendo.
Este foi um referendo histórico e foi o reflexo de um país de divisões profundas: divisão geográfica, divisão geracional, divisão entre classes. Esperemos que estas divisões se cinjam à questão Europeia.
S.G.
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